João Vitor Sooma
24/06/2026 11:00
A Conferência de Bonn foi um grande fracasso para quem esperava avanço em diversos itens da agenda da UNFCCC. A falta de consenso generalizada travou e adiou para Antália, sede da COP 31, temas centrais como a Meta Global de Adaptação, a Mitigação, o Financiamento, os Meios de Implementação e a Agricultura. Para além das discussões infrutíferas anuladas pela Regra 16 – que é acionada quando não há consenso e suspende o debate estabelecido em Bonn (SB 64), transferindo-o para a próxima sessão (SB 65, a COP 31) –, até os prazos para publicação do próximo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticaso, o IPCC, não foram definidos.
Mais uma vez, a questão do financiamento foi um grande problema, especialmente no que diz respeito ao posicionamento dos Países em Desenvolvimento em exigir dos Países Desenvolvidos – com base em sua contribuição histórica para a crise climática – financiamento, transferência de tecnologia e capacitação para implementação. Isso trouxe impactos, inclusive, sobre a Meta Global de Adaptação, que fracassou e teve a discussão adiada para Antália, assim como algumas considerações importantes para a operacionalização do Fundo de Adaptação. Outro item de agenda relevante é o debate sobre Mitigação, que também não avançou e segue sem debates substantivos sobre o Programa de Trabalho em Mitigação, cujas discussões foram postergadas para a COP 31.
No âmbito do Artigo 6, as Partes não chegaram a um acordo sobre o modelo de financiamento a ser adotado para a manutenção da infraestrutura do Artigo 6.2 – que versa sobre os Resultados de Mitigação Transferidos Internacionalmente (ITMOs) – e adiaram as escolhas políticas para Antália. Também sem avanços substantivos, o Artigo 6.8, que trata de Abordagens Não Mercadológicas, não teve definições sobre a continuidade ou a possibilidade de reformulação de seu Programa de Trabalho.
De particular atenção da FASE, a negociação de agricultura foi marcada por um final muito aquém das expectativas. Após um texto procedimental em Belém, esperava-se que o encerramento do segundo e último workshop do Grupo de Trabalho de Sharm El Sheikh, em Bonn, levasse a um texto final relevante para a discussão de Adaptação na agricultura. Entretanto, as negociações foram marcadas por desavenças em dois itens principais: a inclusão ou não de “perda de biodiversidade” como um dos pontos de atenção sobre a atividade agropecuária e a menção à agricultura como responsável por 1/3 das emissões de gases de efeito estufa, ambos elementos citados no parágrafo 3 do primeiro rascunho.
Além disso, houve discordâncias na linguagem adotada ao longo de todo o texto, inclusive no que diz respeito à escolha entre os termos “agricultura” ou “sistemas alimentares”. Qual deveria ser o escopo do grupo de trabalho também foi um ponto de divergência. Por outro lado, as Partes concordaram quanto à necessidade de um maior financiamento para a Adaptação no setor, bem como à importância da tecnologia e da construção de capacidades. Todavia, isso não foi suficiente para que os países chegassem a um consenso sobre um texto final robusto. A consequência? Um texto procedimental que encaminha para a COP 31 as discussões e o debate sobre a continuidade ou não do grupo de trabalho.
Para não dizer que Bonn foi só fracasso, houve algum avanço no Mecanismo de Transição Justa, com um texto final sobre suas funções e governança, mas sem uma decisão sobre a sua estrutura final, também adiada para Antália. No geral, o que não foi suspenso sob a Regra 16 e será renegociado na COP 31 foi encaminhado com textos procedimentais e sem muito avanço substantivo. O senso de urgência segue desacompanhado de ação climática efetiva.
*Educador do NUPA

