A preparação para a Copa do Mundo produziu diversas transformações urbanas. No entanto, bem ao contrário dos discursos apologéticos, estas estão longe de enfrentar os problemas estruturais que castigam o cotidiano de mais de 80% da população do país, que vivem nas cidades e em suas regiões metropolitanas. O chamado legado, no que tange à melhora da qualidade de vida da maioria dos que moram nas capitais que sediam a Copa, é nulo.

Assim como megaeventos esportivos realizados em outros países, a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, a serem realizados no Rio de Janeiro, têm seguido a tradição de garantir a ampliação do lucro dos agentes econômicos privados. Para isso, contam com a ajuda de arranjos institucionais que transferem responsabilidades e recursos públicos para a iniciativa privada. De acordo com dados da publicação “Copa para quem e para quê?, editada pela Fundação Heinrich Böll Brasil, bancos públicos arcaram com 80% dos recursos da Matriz de Responsabilidade (mobilidade, estádios, desenvolvimento do turismo) da Copa. A previsão de gastos, em 2007, era de R$ 5 bilhões. Agora, a estimativa chega a R$ 30 bilhões.

Se olharmos para o conjunto de iniciativas do governo federal, constataremos que os megaeventos esportivos se integram às ações e aos preceitos desenvolvimentistas assumidos pelo governo Lula desde 2003. A partir daí intensificou-se iniciativas para efetivar, com aporte de recursos do BNDES, o projeto Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), anunciado antes mesmo da era PT, em 2000. Em 2006, ocorreu o anúncio da descoberta das reservas do pré-sal. Em 2007, houve o lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Esse anuncia como prioridade o enfrentamento de problemas de infraestrutura urbana e logística, como saneamento, habitação, transporte, energia e recursos hídricos. No entanto, suas iniciativas deram materialidade ao projeto de desenvolvimento associado, malgrado seus minguados efeitos redistributivos, a interesses fortemente econômicos e de especulação financeira.

Ou seja, nesse jogo há muita coisa em jogo! A Copa é uma iniciativa que se orienta por interesses bem mais amplos. Como todos os projetos desenvolvimentistas que conhecemos, implementados em diferentes épocas do nosso país, o atual carrega a marca do autoritarismo e da incapacidade de interagir e dialogar com os interesses populares. O que vimos nas cidades-sede dos jogos foi a ampla violação aos direitos grafados em legislações como o Estatuto da Cidade, Planos Diretores, Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social e a Regularização Fundiária em Terras da União. Enquanto isso, o déficit habitacional do país continua elevado e espaços públicos estão sendo privatizados para atender à indústria imobiliária. O setor da construção, que está no comando de grandes projetos, é composto por grupos como Odebrecht, Andrade Gutierrez, Galvão Engenharia, OAS Empreendimentos, Mendes Júnior, Via Engineering, Andrade Mendonça, Construcap, Egesa, Hap e Engevix, dentre outros. Esses não têm do que reclamar.

Sabemos que as cidades no Brasil sempre tiveram seus históricos e conhecidos problemas urbanos, ambientais, políticos e sociais, porém, com a chegada dos megaeventos esportivos e das grandes obras de infraestrutura, a situação urbana tornou-se ainda mais crítica. A elitização das cidades só aumentou a segregação socioterritorial. Houve elevação dos custos de moradia e aluguel. Moradores de favelas ou de ocupações próximas aos grandes centros foram removidos para locais sem nenhuma ou pouca infraestrutura, rompendo com vínculos socioafetivos e culturais. Para essas pessoas, a chamada mobilidade pendular – o percurso casa-trabalho-casa – transforma-se em um calvário. Aos que conseguem resistir às remoções, fica a missão de enfrentar a coerção policial e o aumento da violência contra mulheres e jovens.

As manifestações de junho de 2013 expuseram essas e outras contradições da nossa sociedade e o quanto o Estado é violento. Naquele momento, a luta do Movimento do Passe-Livre (MPL) colocou em questão o valor e a qualidade do transporte público, o que funcionou como catalisador e estimulou a população a ir às ruas. No mínimo, essa onda de protestos teve um papel político-pedagógico. A aparente normalidade foi quebrada.

Um ano depois, às vésperas da Copa, ainda que as principais vias das cidades não estejam mais transbordando de manifestantes, os protestos seguem ocorrendo de diferentes formas. Dos sem-teto, passando por greves de categorias de trabalhadores – como rodoviários, metroviários, profissionais da educação e garis, dentre outras – até momentos de revoltas de moradores de favelas diante de atos bárbaros em cidades militarizadas. Os conflitos diários continuam falando de lugares, trabalhadores e populações tratados de forma injusta, violenta e desigual nos seus direitos.

Ao mesmo tempo, nem de perto ‘o país do futebol’ parece estar tão entusiasmado com a Copa. Certamente as pessoas, no calor dos jogos, se envolverão emocionalmente com a seleção. Ainda que se tente transformar o mundo da bola em mera mercadoria, ele é sentimento e expressão cultural. Agora, ser crítico à Copa e participar de protestos durante o megaevento não necessariamente é ser contra o Brasil. Pelo contrário, é querer continuar lutando contra as injustiças cometidas e aproveitar o momento de visibilidade para mostrar o que, depois desse momento de animação, ficará ainda mais evidente: o ‘legado da Copa’ foi um engodo.

A Copa do Mundo, do jeito como foi organizada, é mais uma peça dentro do jogo desenvolvimentista. Ela serve a poucos: à FIFA e a quem integra a cadeia de negócios gerada por eventos, com essa magnitude e poder simbólico, capazes de mobilizar tanto dinheiro e tantas instituições políticas. Essas que deveriam garantir uma sociedade justa e democrática, mas que só têm demonstrado limitações e preferências pela reprodução do capital.