Aercio Barbosa de Oliveira*

 

No Brasil, somos 217 milhões de habitantes. Desses, 156 milhões estão aptos a votar. No 1º turno da eleição de 2022 para presidente da República, um pouco mais de 32 milhões deixaram de votar; 5,4 milhões de votos brancos e nulos; 57.259.504 votaram no Lula e 51.072.345 no atual Presidente da República, que disputa a reeleição. Para o 2º turno todas as pesquisas apontam a vitória de Lula, mas por uma diferença pequena, na faixa dos 5% dos votos válidos. Esses números têm deixado analistas da área política inquietos.

Como um presidente racista, homofóbico, misógino, que faz apologia da violência inclusive; que apresenta indícios de relações com criminosos, que comanda um governo corrupto (o próprio comprou 51 imóveis com dinheiro vivo); que corta recursos da saúde, da educação, da ciência, que achata o salário do trabalhador; que é o principal responsável por colocar o Brasil no Mapa da Fome, que extingue programas sociais exitosos como o Bolsa Família, Mais Médicos, Minha Casa Minha Vida, de alimentação nas escolas e de incentivo a agricultura familiar, por exemplo; que durante a pandemia avacalhou as mortes causadas pela covid-19, como negacionista procrastinou a compra da vacina; que contribui para a desinformação diariamente, ameaça as instituições democráticas, que é estúpido e demonstra total incapacidade para o cargo que exerce consegue chegar no 2º turno e deixa, no mínimo, 60 milhões de potenciais eleitores do Lula apreensivos com a sua possível reeleição?

Para essa longa pergunta têm se dado inúmeras respostas. Fala-se que Bolsonaro se tornou a principal referência simbólica para uma maioria da população que é racista, misógina e homofóbica; que Bolsonaro é o antissistema, aglutina em torno dele os ressentidos que desprezam o sistema político, que, faz muito tempo, está desconectado dos reais interesses da população; outro caminho explicativo é de que a mídia corporativa contribuiu para que os processos na justiça do que foi designado “mensalão” e depois operação “lava-jato” estimularam a população a procurar um candidato que estivesse fora de um sistema político apodrecido, corrompido; uma outra justificativa para que se apoie um presidente candidato à reeleição que leva a nossa sociedade para a barbárie é que a população brasileira é conservadora e com o avançar de agendas progressistas no campo dos costumes tem provocado a mobilização de grupos reacionários. E por aí vai tantas e tantas explicações que, seguramente, se complementam para montarmos um quadro de justificação para estarmos metidos nessa imensa enrascada civilizatória. O fato é que boa parte dos analistas foram surpreendidos, principalmente quem tem como referência nas análises políticas as relações objetivas de causa e efeito. Um exemplo já clássico é aquele de que se a economia vai bem, com impacto no bolso do eleitor ou eleitora, as chances de reeleição são imensas. Se a economia vai mal, o risco de derrota de quem tenta a reeleição é grande. Não é o caso no momento! A economia vai mal, mas quase metade dos eleitores que foram às urnas, no 1º turno, deu de ombros para isso, mais um “E daí.”

O sucesso econômico elegeu Fernando Henrique Cardoso (FHC) presidente da República. FHC, ex-ministro da economia do presidente Itamar Franco, governo que criou o Plano Real; a economia estava indo bem e FHC se reelegeu presidente. Com Lula não foi diferente. Este ganhou de um candidato apoiado pelo presidente FHC, que terminava seu segundo mandato com a economia cambaleando. Lula se elegeu prometendo uma vida material melhor, o que aconteceu. Em seguida, mesmo com a crise do “mensalão”, se reelegeu e, na esteira dos seus feitos, elegeu Dilma Rousseff como sua sucessora. Esta, devido ao ambiente econômico muito adverso, se reelegeu com dificuldades e com o fim do “milagrinho brasileiro” seus adversários identificaram as condições políticas para lhe aplicar um golpe parlamentar-jurídico-midiático, em 2016.

Agora, aspectos econômicos criam dificuldades para a reeleição do atual Presidente da República, mas mesmo ele sendo o segundo candidato mais votado no 1º turno, caso inédito no Brasil, ainda demonstra muita força eleitoral. Evidente que estar no comando de uma prefeitura, de um governo do estado ou do governo federal ajuda bastante numa reeleição. As instituições do Estado e a maioria da população assistem passivamente ao saque aos cofres públicos e o desajuste nas contas públicas que este governo faz para se reeleger. Mas acredito, sem ignorar as justificativas para tamanha insanidade eleitoral, que há algo da ordem subjetiva, do universo psíquico e de valores morais que precisam ser destacados para nos ajudar a identificar toda a força de um candidato que nunca escondeu que quer nos levar para uma situação de barbárie e tem colaborado aceleradamente para aumentar a pobreza e miséria da nossa população.

Estou entre aqueles observadores que avaliam que estamos num tempo de profundas transformações nas constelações dos valores éticos e morais. Mesmo com limitado espaço tentarei expor as minhas principais considerações sobre esse tema de maneira apressada, bem resumida, porém de forma inteligível. Avalio que valores próprios da economia neoclássica, como maximização das vantagens, eficiência, concorrência passaram a constituir a bússola moral do Brasil e de grande parte das sociedades ocidentais. A economia neoclássica ganhou vida no final do século XIX, mas só conseguiu encontrar a luz do dia de maneira duradoura a partir da década de 1970, e hoje a vemos extrapolar a sua área. Essa extrapolação gera um paradoxo, pois o neoliberalismo, que tem como base a economia neoclássica, não tem o mesmo poder de outrora no mundo econômico.

No Brasil, devido à nossa trágica formação social – escravismo, patrimonialismo e patriarcado – esses valores que se deslocaram do universo econômico para ocupar quase todos os espaços da vida cotidiana, que mais parece uma nova religião, agravam nossa tragédia. De um lado temos a conhecida teologia da prosperidade dos neopentecostais, onde o crente pode conjugar a busca por ganhos materiais e uma nova vida no Reino dos Céus, do outro, o sujeito “empreendedor de si”.

Se para o crente neopentecostal todas as dificuldades pelas quais ele passa são uma provação para ter uma vida melhor mais adiante, tudo obra de Deus, para o sujeito “empreendedor de si” as dificuldades encontradas na vida, os insucessos, o salário baixo são porque ele não fez as coisas de maneira certa, falha que precisa ser corrigida.  Em ambos os casos, a solução para as mazelas pessoais é algo que depende do empenho individual, seja no ato de fé ou na aquisição de meios para vencer a concorrência do trabalhador que está ao seu lado.

A figura do Estado, do poder público, do governante, com suas responsabilidades de realizar um bom governo, que no mínimo distribua a riqueza socialmente produzida, não é uma questão prioritária para o “empreendedor de si”. Para um religioso fervoroso, se as coisas estão dando erradas, conforta saber que é um roteiro traçado por Deus, que sabe o que é melhor para mim. Para um “empreendedor de si”, se ainda não adquiriu uma boa posição social, comprar um carro, um celular de última geração, roupas de marcas ou mesmo bens falsificados, mas de uma marca conhecida, é culpa dele. A ideia é “se eu fizer a coisa certa chegarei lá”.

A cultura do “empreendedorismo de si” ao lado do ressentimento de uma maioria que tem ganhado muito pouco com a democracia liberal tem envenenado a nossa população. As pessoas, com alguma razão, passam a desprezar o Estado, o sistema político formal. Por exemplo, ninguém quer pagar imposto. Nem quem pode pagar e nem quem não deveria pagar – os que têm baixos rendimentos.  No imaginário social, imposto e Estado têm pouca serventia. O retorno dos impostos cobrados é limitado. É difícil para as pessoas numa era do excesso de informação e de desinformação entenderem a importância do Sistema Único de Saúde, de direitos trabalhistas, fazer relações causais que exigem tempo e informações confiáveis prévias etc. O que temos visto são pessoas buscarem soluções individuais para problemas sistêmicos.

Essa cultura que foi sendo absorvida pela subjetividade de milhares de pessoas no Brasil talvez ajude a explicar, em parte, as razões de Lula perder para Bolsonaro no estrato de eleitores que ganham acima de dois salários mínimos. Conforme pesquisas qualitativas, estes parecem crer que tudo pode melhorar com o esforço pessoal. Nessa linha de raciocínio não há motivos para culpar um presidente incompetente que só aprofundou a miséria. Inclusive, um presidente que defende o cada um por si, que cada um resolva os seus problemas. Vocês devem se lembrar quando ele foi perguntado por um jornalista sobre o que poderia fazer para reduzir o desemprego. Não é à toa que o Auxílio Brasil tem gerado poucos votos para Bolsonaro. Essas pessoas e aquelas que ganham até dois salários mínimos parecem que ainda não foram envenenadas por esse novo ethos oriundo da economia, o do sujeito “empreendedor de si”, que vai tomando forma no mundo inteiro.

Ressalto que o “empreendedor de si” é bem mais que aquele que tem Microempreendedor Individual (MEI) registrado ou tem o seu próprio negócio. Tratamos aqui, como já havia adiantado, de um estado de espírito. De um modo de pensar, que impulsiona o modo de agir e interpretar as relações sociais. Passamos de uma economia de mercado para uma sociedade de mercado. Essa é a autoimagem que parte considerável constrói. Aquela ideia tão antiga de que natural é “cada um por si” ou, em linguagem religiosa, vale é a Lei de Talião, “olho por olho, dente por dente”, do Velho Testamento, está se sobrepondo aos preceitos do Novo Testamento. Compaixão, amor ao próximo, não faça ao próximo aquilo que você não deseja para si, ideias que encontramos nos escritos sobre Jesus Cristo, que serviu de base para filosofias numa sociedade laica, para ideologias sociais, projetos societários includentes e abrangentes como socialismo, comunismo, solidariedade, perdem espaço aceleradamente.

Talvez um dos maiores desafios de um futuro governo que contenha a barbárie iniciada por Bolsonaro, a partir de 2023, além de garantir o bem-estar material, alimentação regular, acesso a políticas públicas de redistribuição de renda é enfrentar esse novo tempo e entrar no campo dos valores, da ética da sociedade. Por mais que o mundo tenha mudado, a solidariedade, a busca da felicidade para todos e todas, a defesa da vida para qualquer pessoa independentemente da cor da pele, orientação sexual e classe ainda é algo que merece ser perseguido. Aos que estão envenenados pela nova religião do “empreendedorismo de si” e para a sociedade em geral, é preciso mostrar que, em uma sociedade complexa, com milhares de pessoas, extremamente urbanizada, crianças e velhos, no mínimo, precisam da ajuda do Estado. Demonstrar que o Estado é fundamental para criar meios para a oportunidade de que todas e todos tenham no horizonte a mobilidade social ascendente, para se ter uma vida digna. Políticas de cotas nas universidades e políticas de ações afirmativas, créditos subsidiados, políticas públicas de geração de renda, entre tantas outras, são fundamentais para manter uma sociedade com algum nível de paz. A meritocracia, o Estado mínimo, o aumento da desigualdade social só servem para agravar a violência e a instabilidade social.  Mais do que nunca é preciso recuperar a função pedagógica do exercício da política e do poder.

 

*Aercio Barbosa de Oliveira é coordenador da FASE Rio.