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19/02/2021Amazonia

Entre a falta de vacina e as falsas notícias

Após de 17 dias de lockdown e com pouca vacinação, região do Baixo Amazonas pode enfrentar segunda onda de Covid-19


Sara Pereira¹

Foto: Agência Pará

Depois de 17 dias de lockdown, a região do Baixo Amazonas, no Pará, teve o bandeiramento mudado pelo governo estadual, passando de preto para vermelho. Isso representa a flexibilização de medidas de prevenção à Covid-19 nos municípios da região. Apesar da alegada queda na taxa de contágio, nessa quinta-feira (18), o governador, Helder Barbalho, formalizou a reinstalação do hospital de campanha em Santarém, principal município do Baixo Amazonas. Segundo o Boletim Covid divulgado pela prefeitura de Santarém, também nessa quinta-feira, a cidade já contabiliza 588 mortes em decorrência da doença e nove pessoas estão na fila de espera por um leito de UTI.

A cerimônia de reabertura do hospital de campanha contou com a presença do ministro da saúde, Eduardo Pazuello. Mas, a única boa nova anunciada pelo ministro foi a promessa de liberação de novas doses de vacina ao Estado do Pará no final de março. Enquanto isso, o povo da região tem que redobrar os cuidados e rezar para não ser contaminado, pois o sistema de saúde está em vias de colapsar com a crescente nos números de contágio e o Pará segue na última colocação no ranking nacional de vacinação, sendo o estado que recebeu, proporcionalmente, a menor quantidade de vacinas contra a Covid-19. Conforme dados publicados no site da SESPA (Secretaria Estadual de Saúde), nesta sexta-feira (19), o Estado aplicou um total de 111.463 doses. Dessas, a região do Baixo Amazonas aplicou apenas 35 mil doses.

A luta contra a desinformação

Como se isso não bastasse, o Distrito Especial Indígena do Rio Tapajós – Polo base Itaituba – divulgou documento nesses dias, via redes sociais, denunciando que em diversas aldeias povos indígenas se recusaram a tomar a vacina porque haviam recebidos informações, via rádio, que poderiam morrer ou virar jacaré, caso aceitassem ser imunizados. É gravemente trágico que, além do risco da Covid, os povos indígenas estejam expostos ao vírus das fakesnews.

O Comitê Popular de combate à Covid-19, coletivo formado por 43 organizações e movimentos populares, entregou um documento ao ministro da saúde, através do Vereador Biga Kalahare (PT), no qual denuncia que a cidade de Santarém e a região do Baixo Amazonas estão vivenciando uma segunda onda da pandemia. Segundo o documento, essa informação pode ser confirmada com os dados da última quinzena divulgados diariamente pela Prefeitura de Santarém e pela SESPA. Inclusive, na publicação ocorrida no dia 16, Santarém registrou o segundo maior dia de óbitos em decorrência da Covid, tendo sido confirmadas 12 mortes pela doença. Nesse mesmo período, houve um crescimento de 31% de internações de pacientes infectados com o vírus, bem como cresceu 39% a necessidade de leito de UTI.

O lockdown foi decretado depois que a SESPA confirmou casos da nova cepa na região do Baixo Amazonas, que faz divisa com o estado do Amazonas. Mesmo com a imposição das medidas restritivas de circulação, de acordo com a Segup (Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social), os 14 municípios que permaneceram em lockdown desde 1º de fevereiro, tiveram média de isolamento social de 46,20%. Percentual muito abaixo dos 70% recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Entre a fome e o vírus

Com o fim do Auxílio Emergencial, muitas pessoas têm que escolher entre o risco de ser contaminado e a necessidade de obter renda para o sustento da família. Como ficar em casa, se o prato está vazio? Além disso, a criminosa postura negacionista do governo federal, confunde e atrapalha uma maior adesão às medidas de isolamento social. 

Foto: Agência Pará

Embora o lockdown seja uma medida temporariamente necessária, não há como manter a restrição de circulação a longo prazo quando temos milhares de famílias sem acesso a política de renda mínima. Sem um plano de vacinação em massa, a população estará sempre vulnerável a chegada da segunda, da terceira e de tantas quantas ondas surgirem, pois, a estrutura hospitalar nunca será suficiente para evitar que as pessoas continuem morrendo por não conseguirem respirar.

Com esse ritmo de vacinação a conta-gotas, as populações amazônidas, que historicamente sofrem com a negação ou o acesso precário a políticas públicas de saúde, seguem altamente em risco. Enquanto o governo federal não estabelece uma política integrada com estados e municípios no combate à pandemia, moradores das periferias urbanas, povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, agroextrativistas, pescadores e toda a diversidade de populações tradicionais, contam com a própria sorte e com a rede de solidariedade da sociedade civil para se manterem vivos e resistindo ao coronavírus e a política de morte implementada dia e noite no Brasil.

Vacinação em massa, já!

[1] Educadora do programa da FASE na Amazônia.

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