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02/10/2020Justiça Ambiental

“No Pantanal ou na Amazônia, o que eu vejo é só fogo”

Fotógrafo conta sua experiência pessoal nas áreas do Pantanal atingidas por queimadas, fala sobre a saudade de casa e a indignação pelo que vê


João Paulo Guimarães¹

Eu sinto saudade de casa. Muita. Sinto falta de coisas bestas como cheirar o cabelo da minha filha deitada no meu colo assistindo aos vídeos que ela adora, da minha esposa conversando comigo sobre a televisão que ela quer comprar, mas que não podemos porque o dinheiro tá apertado. Aí eu começo a percorrer o país e registrar as queimadas. No Pantanal ou na Amazônia, o que eu vejo é só fogo. Sinto raiva dele.

Foto: João Paulo Guimarães

Sobrevoo com a Força Nacional uma região destruída por chamas de 40 metros de altura. Clico animais em atendimento. Bichinhos feridos, mortos e aí consigo focar apenas na missão de levar as imagens da realidade que são as queimadas até pra quem é um negacionista ou não acredita nesse inferno que o pantaneiro e o amazônida vêm vivendo.

Foco na próxima pauta, na miséria que eu vejo por onde passo, como a que vi em Poconé, no Mato Grosso. A desigualdade, o mal escondido em cada discurso que contradiz tudo que existe de errado nesse país. Foco em fotografar a verdade que vejo, porque a fotografia não tem meio termo. Ela é fato. E o fato é que o nosso país tá queimando. Morrendo. Tá definhando.

Fogo às margens do Rio Paraguai, em Cáceres, MT. Foto: João Paulo Guimarães

Nessa hora eu lembro dos cabelos encaracoladinhos da minha filha. Do cheirinho da minha Amora. Ela não tem ideia de que tudo que eu faço é para que um dia ela olhe para mim e saiba que de uma forma minúscula eu tentei fazer a diferença.

Veja as fotos produzidas por João:

[1] Fotógrafo paraense parceiro da FASE. 

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