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08/03/2021Mulheres

#8M: Lúcia Xavier e a luta pelos direitos das mulheres

Na série “O que você deseja para as mulheres?”, conversamos com quatro ativistas sobre direito à cidade, justiça ambiental, segurança alimentar e direito das mulheres


Alcindo e Rosilene Miliotti¹

A nossa última entrevistada para a série “O que você deseja para as mulheres?”, é a ativista Lúcia Xavier, assistente social, coordenadora da Ong Criola e conselheira da FASE. Filha de uma empregada doméstica e de um radialista, que morreu muito cedo, ela prestou vestibular para Serviço Social no momento em que estava com tudo pensado para cursar Direito. “Minha prima me apresentou o currículo de Serviço Social, que tinha mais a ver com os meus ideais de justiça do que o próprio direito”.

Lucia Xavier no seminário 55 anos da FASE. (Foto: Rosilene Miliotti / FASE)

Lúcia confessa que um dia começa lutando pelo direito da mulher e, no outro, está lutando por uma série de outros direitos, mas “a luta contra o racismo patriarcal está na minha vida pelo reconhecimento da minha condição de mulher negra”. Até 1997, ela atuou no campo dos direitos da criança e do adolescente. “Essa luta fez com que eu realizasse um cruzamento entre as áreas políticas que eu atuava. Primeiro no campo do racismo, e depois para a questão do feminismo. Em 1992, por uma opção política, pela fundação da Ong Criola, passei a atuar somente com mulheres negras. Minha profissão fala do meu desejo de justiça e também do desejo de agir politicamente, de compreender os direitos, os dilemas e os processos da vida das pessoas e poder ajudar a encontrar soluções, acolhimento e perspectiva”.

FASE: O que te faz permanecer nessa área, ainda mais em tempos de trabalho remoto?

Lúcia Xavier: A busca por justiça. Claro, eu agregaria a isso a liberdade, a ter uma vida digna e também uma perspectiva de que mulheres negras são pessoas que criam soluções diante das adversidades. Elas têm uma sensibilidade e uma inspiração que me faz crer que eu fiz a coisa certa na vida. Posso não ter conforto financeiro ou projeção profissional, mas essas mulheres negras me inspiraram a ter esse contínuo compromisso. Então, para te dizer a verdade, tirando a tristeza e o cansaço, não vou dizer que esses problemas não me assolam, mas esse tema colocou um incômodo em mim e me faz continuar, às vezes mais lentamente, às vezes com mais rapidez, mas me faz ver que é possível.

Eu vou trazer um exemplo muito simples. Quando eu trabalhava na rua, muitas famílias que estavam naquela condição, tinham o hábito de fazer festa de aniversário e eu achava aquilo demais. Pensava: como aquelas famílias, que não tinham quase nada para comer, faziam festas de aniversário?  Depois fui entendendo que aquilo era uma celebração da vida. No início, eu participava olhando com maus olhos, e depois passei a achar muito importante, inclusive para mim, que era sistematicamente convidada para as festas daqueles que não tinham quase nada. Isso me inspirou mais ainda, pois havia ali uma potência que era muito pouco aproveitada para gente pensar a sociedade, a vida, em como enfrentar aquelas formas de opressão.

FASE: A mulher é sempre vista ou colocada no lugar do cuidado, de cuidar sempre dos outros. Você se vê nesse lugar?

Lúcia Xavier: Sim, eu me vejo nesse lugar, basta ver a profissão que escolhi. Claro, não é um cuidado em si, aquilo que afeta o papel das mulheres na sociedade, mas é um que se mistura a uma dimensão política de que a vida de quem enfrenta problemas complexos como a população negra vai sempre exigir.  Nós (mulheres negras) somos mais empurradas para esse papel do cuidado, um preparo para a vida profissional, afinal, o seu caminho estava sendo traçado naquela linha do emprego doméstico, do casamento, mas a ordem do dia não era isso, era a sobrevivência.

Mãe e filha durante a pandemia. Foto: Francisco Valdean / Imagens do Povo

A minha mãe sempre pensou que a gente tinha que cuidar da gente, para que todas nós tivéssemos segurança, acesso à comida e uma certa normatividade da vida. Com o crescimento da violência, cada vez mais a gente vai encontrando formas de cuidado coletivo para proteção. Se no meu tempo o dilema era em como sobreviver mantendo essa unidade, hoje, talvez, não seja. Além disso, eu parto também da ideia de que o cuidado tem uma dimensão econômica, política e social, mas no caso da população negra também é uma estratégia de sobrevivência.

Se olharmos para o que aconteceu com a pandemia, se não fosse a capacidade da população em produzir esse cuidado, em estabelecer mecanismos que dessem conta daquilo que a população negra precisava, se dependesse só do Estado, ela não seria exitosa. O cuidado tem uma série de perspectivas e conforme a gente vai compreendendo as relações, cada vez vamos colocando ele em algum lugar.

FASE: Como você percebe a atuação das mulheres na luta pela manutenção dos seus direitos e quais são os desafios?

Lúcia Xavier: Vivemos em um país em que a democracia não vive bem com racismo, com a violência e com a falta de direitos. Já vivíamos uma condição de perseguição, de perda de direitos das mulheres, principalmente de mulheres negras, e que se aprofundou bastante com a pandemia, o que revela o quão longe dos direitos nós estamos. E se você ainda tem um estado que se coloca contra um determinado grupo da sociedade e que não distribui o que ela produziu, isso faz com que esse grupo fique com a possibilidade de perder a vida a qualquer momento.

A pandemia trouxe uma outra dimensão para o aspecto dos tipos de violência que sofre a mulher. Há um número elevado de casos de violência doméstica e intrafamiliar, de feminicídio, e nada disso nos era estranho. E quando chega a pandemia, chega também a radicalização desse processo. Eu acho que os movimentos agiram muito bem em trazer à tona como ela reforçava ou inovava no campo da violação dos direitos das mulheres. Ela (a pandemia) se tornou um drama para as mulheres que tiveram um aumento da sua carga horária de trabalho, ou no serviço em casa, e ainda militava. Isso ajudou a invisibilizar em termos de problemas, mas também das soluções que elas estavam encontrando. 

As mulheres demandam também um reforço de políticas públicas ao cuidado, à proteção nesse período da pandemia, o direito de poder cuidar da sua família em termos financeiros, já que elas também estavam na crise do (mercado de) trabalho e a sociedade não respondia. Então, de certa forma, essa invisibilidade da ação política das mulheres e dos problemas que elas estão passando foi muito importante para o aumento da violência e do feminicídio. Não estou dizendo que os movimentos não fizeram nada, mas sim que esse aumento é proporcional aos problemas e às dificuldades que elas tiveram que enfrentar. Se determinado serviço era ruim, havia diversas formas de buscar uma solução.

Esse inchaço causado pelas relações familiares também é muito complexo. Os mecanismos de suporte à mulher estão todos ou quase todos fechados, como as escolas que permitiam que elas saíssem para o trabalho sabendo que os filhos estavam protegidos com alimentação, segurança e sob certo cuidado. Isso significa que, em casa, ela também teve que arregimentar a força de trabalho dessas crianças para poder se organizar, não só no trabalho da casa, mas também dentro das suas próprias tarefas.

Foto: Oxfam Global

Outra questão importante é a da economia doméstica bem mais complexa do que ela já estava antes. Se você não comesse todas as proteínas num dia, no outro havia um equilíbrio, mas hoje muitos não estão tendo essa capacidade. Elas também ficaram reféns de uma economia que define como será a sua dieta alimentar. Todo esse processo de organização interna ficou a cargo das mulheres e isso é muito estressante, porque elas têm que lidar com os sentimentos, as dificuldades de cada um e também com as suas necessidades.

Por fim, tem outro desafio que é a capacidade de reverberar as suas demandas e agendas nesse período em que a voz que está protagonizando é a dos especialistas e dos políticos. Não poder falar desses problemas e ter da sociedade a solidariedade, ou mesmo que você consiga falar (e não ser ouvida), isso faz com que as mulheres tenham posturas diferentes, principalmente nas urnas, votando em mulheres e pessoas trans. Isso já demonstra a releitura que a sociedade vem fazendo

FASE: Estamos vivendo um período de muitos retrocessos. Como você avalia o impacto da perda de direitos na vida das mulheres à curto, médio e longo prazo?

Lúcia Xavier: No caso da mulher, eu acho que todo o retrocesso no campo do direito e da vida individual, das perspectivas que as mulheres apresentam para sociedade, é de longo prazo. O fato de elas terem perdido o emprego, em sua maioria, o fato de estarem enfrentando problemas de ordem familiar, o fato de estarem ainda inseguras por conta da violência doméstica intrafamiliar, também arrasta por um tempo a tomada de decisão de determinado grupo. Temos que recuperar as condições políticas para poder avançar nesse campo.

Os impactos serão de longo prazo também porque o maior setor entre mulheres, que é o de mulheres negras, já passa ou vai passar por problemas de todas as ordens. Independentemente da sua condição de formação ou econômica, terão problemas para acessar o mercado de trabalho. Depois, a maior parte dos assistidos por programas sociais como o Bolsa Família, estão fadadas a perder esses direitos, em sua maioria por não compreender as novas regras. Se a gente for olhar, por exemplo, o campo da educação, há algum tempo, mulheres têm perdido a força política de comporem novas turmas, de enfrentarem o pré-vestibular, de terminar o ensino médio e, com certeza, de encontrar profissionalização suficiente para entrar no mercado. Então, as chances de as mulheres saírem do período escolar com menos tempo de estudo é muito forte agora, elas poderão sair antes de terminar o segundo grau ou por gravidez ou por necessidade de entrar no mercado. Ou até mesmo por reorganização ou rearranjo familiar, já que vários homens também perderam o emprego. Sem o auxílio, essa população não vai conseguir ter comida na mesa por muito tempo.

Também destaco a participação política que tem sofrido muito em relação à violência contra vereadoras, deputadas, prefeitas, mostrando que muitas mulheres que entrarem neste campo poderão perder a vida, serão perseguidas por algo que nem começou ainda, mas que está descrito na bandeira dessas mulheres. Então, o campo de representação política sobretudo escolhido pela juventude para trabalhar, também está sob ataque, sobretudo quando são mulheres negras e trans. E por fim, os direitos básicos essenciais desapareceram do mapa. Água potável, direito à saúde, direito à uma vida digna e com liberdade, tudo isso volta a ser teoria conceito e deixa de fazer parte das estratégias do dia a dia.

FASE: Você falou sobre o risco que essas mulheres sofrem quando entram no campo político, e diante disso nós lembramos do assassinato da vereadora Marielle Franco, que vai fazer três anos. O que você acha que faz com que essas pessoas que matam, ameaçam e agridem, se sintam no direito agir assim?

Lúcia Xavier: É bom lembrar que a violência faz parte do jogo político. Elas não foram as primeiras e infelizmente não serão as últimas a serem ameaçadas e até morrer por isso. A Câmara do Rio de Janeiro, por exemplo, tem estatísticas escabrosas de mortes de parlamentares durante a legislatura e independente da sua qualidade política, esses índices são bem elevados para cada mandato. Em se tratando da política atual, onde não há uma distinção entre crime organizado, Estado e o jogo político, essas peças (declaradamente) novas vem com força para cumprir um papel ideológico.

Foto: Rosilene Miliotti / FASE

Mas na medida que vai crescendo essa estratégia e ela dizendo para você “olha, negócio é o seguinte: a gente devia tentar por aqui” e aí você tem desde a morte da Marielle, que é o marco fundamental desse processo e que ajuda a impulsioná-lo, um monte de jovens negras e trans se candidatando, construindo alternativas de governança legislativa, trazendo novos modelos de perspectivas para a disputa eleitoral. Isso puxa, de certa forma, todos os setores envolvidos no jogo político. Então, tem aqueles que vão agir pela norma, desde o impeachment até a quebra de decoro parlamentar, e tem aqueles que vão agir com violência, tirando a vida, ameaçando, escrachando, trazendo dimensões da interseccionalidade e da subordinação para o cenário político. Então, você passa a ser perseguida porque se projetou politicamente, mas aquela outra perseguição que é contínua vai fazer parte desse processo. Se eu sou da comunidade LGBTQIA +, eu sigo discriminada com essa camada por cima. Se eu sou negra, também sou discriminada, com mais essa camada.

E, com isso, não fica parecendo que estrategicamente, essas mulheres estão agindo para tomar o poder e por outro lado, também não fica parecendo que isso faz parte do jogo político, então se você perguntar, “não, no jogo político nunca teve essa dimensão de violência”, mas é claro que sim, inclusive nas composições parlamentares. E a ideia é: quando é que esse jogo político passou a ser também a norma, como no caso da Marielle, porque até agora a gente não descobriu quem matou, quem mandou matar e por qual motivo matou. Ele passa a ser a norma porque são tantos indivíduos agindo na sombra desse processo, que você acaba achando que não é norma, que são sujeitos aleatórios que vão lá, defendem um posicionamento, que ofendem, que até podem bater, dar um tiro, mas será que é só isso mesmo? De certa forma, eu diria que essa violência hoje está muito incrustada no jogo político.

FASE: Por fim, qual é o seu desejo para as mulheres neste 8 de março?

Lúcia Xavier: Eu sonho que esse 8 de março seja inspirador, para que a gente possa seguir em frente na luta pelos nossos direitos e pela justiça, por aquilo que as mulheres negras chamam de “bem viver”, que são novos padrões de civilidade, de arranjos políticos institucionais e sociais.

Foto: Rosilene Miliotti/FASE

Este 8 de março, também vai se inspirar nas dinâmicas que enfrentaremos por causa do 14 de março, data do assassinato da Marielle, da nossa dor, do nosso sofrimento, mas também daquilo que ela foi capaz de gerar. Além disso, tem outra data importante que o 21 de março, que nos remete a uma luta coletiva de adolescentes e jovens que se levantaram contra a opressão na África do Sul e que marca a necessidade de enfrentar o racismo.

Eu creio que esse 8 de março, será um dia de regozijo, de celebração pela vida, porque a pandemia nos causou muito sofrimento, muitas perdas, mas também nos causou um vigor pela luta, pelo direito, pelo acolhimento, pelo cuidado das mulheres. Então, eu gostaria que esse dia fosse de celebração, se possível, de descanso, que elas pudessem ser mimadas, acariciadas, amadas, respeitadas, para que elas possam seguir em frente nessa luta tão importante.

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