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21/05/2021AgroecologiaEspírito Santo

Agroflorestando ajuda revitalizar parte da Mata Atlântica no Espírito Santo

Apoiado pela FASE, até agora o projeto já recuperou cerca dois quilômetros de área que, desde os anos 1960, é degradado pelo monocultivo de eucalipto


Alcindo Batista¹

“Estou na expectativa de ter nosso território de volta todo construído, com seus córregos, com as nascentes brotando água e a mata reformada. Só assim vamos ter uma vida melhor para continuar com os nossos conhecimentos, sabores e deveres”, conta dona Luzinete Serafim Blandino,  63 anos. Quilombola, ela mora na comunidade de São Domingos, uma das sete que são atendidas pelo projeto “Agroflorestando, no Sapê do Norte, apoiado pelo programa da FASE no Espírito Santo, e que vem reflorestando terras que desde a década de 60 foram degradadas pelo monocultivo de eucalipto no município de Conceição da Barra, no norte do estado. 

A iniciativa é fruto de um diálogo entre agricultores e agricultoras familiares, quilombolas, escolas do campo, pesquisadores, estudantes e parceiros e parceiras da agroecologia, que tem como o objetivo revitalizar a parte da Mata Atlântica que foi danificada na região do quilombo Sapê do Norte, introduzindo sistemas agroflorestais, a produção água por meio da restauração de nascentes, alagados e cursos d’água e desenvolver a economia solidária através de  programas,  redes  e parcerias. Até agora, já são 187.5 hectares de área restaurada, o equivalente a 1,8 km². 

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Agroflorestando no Sapê do Norte
Foto: Arquivo FASE ES

Para Marcelo Calazans, coordenador da FASE no Espírito Santo, essa ação “reúne experimentos e conhecimentos estratégicos para a luta quilombola por seu território ancestral e para a defesa dos direitos humanos e da natureza”. Ele diz ainda que “sem dúvida, trata-se de um projeto estratégico para o Espírito Santo e para todas as zonas de sacrifício das empresas de celulose e siderurgia, as duas principais plantadoras de desertos verdes”. A FASE apoia essa iniciativa desde 2020. 

Foto: arquivo pessoal

Voltando para Luzia, ela conta que, quando pode visitar territórios quilombolas de outros estados, viu que era possível a recuperação com a agricultura protegendo o solo e restaurando os rios e as nascentes, salvando o meio ambiente e dando mais vidas para os animais. Além disso, ela fala do uso de plantas medicinais como remédio. “Enquanto puder, estarei aqui para defendê-la”, pontua. 

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O trabalho de implantação do sistema de agrofloresta é feito pela A3 (Assessoria Agrícola Ambiental) e conta com a cooperação de diversas associações, coletivos e organizações e moradores da região. Um deles é Thínio Camillo, mais conhecido como Bruno, de 35 anos, artesão, pescador, condutor ambiental e agricultor familiar. Ele lembra que, antigamente, os seus parentes trabalhavam na extração de madeira e hoje “trabalhamos com esse projeto de agrofloresta plantando árvores. Com esse dever de plantar árvores, as deixamos para os nossos filhos, para a natureza e para os animais”.

Foto: Arquivo pessoal

Por conta do projeto, atualmente Thínio vive em uma área de transição, próximo à nascente do Rio Velho Antônia, que, por causa do monocultivo do eucalipto, foi represado em três partes e acabou secando. “Nesses 10 anos de recuperação, com o trabalho de agricultura familiar e com o trabalho de agrofloresta, essa água foi recuperada, voltando a desaguar no rio principal, o Itaúnas”. Nessa região, será formado um corredor ecológico ligando a nascente até a mata do rio, onde são cultivados feijão, banana e árvores nativas como murici, ingá, pau brasil, biriba, jequitibá e a braúna, possibilitando a existência de animais como teiú, Luiz Caixeiro e esquilos. 

Por um resgate ancestral

Thínio aponta que seus pais e avós tiveram contato com a terra, com a natureza antes do eucalipto chegar, ação que teve apoio da Ditadura Militar. “É um resgate ancestral, tanto pelo lado rural quanto pelo lado da cultura indígena, quilombola, é uma coisa de ir bem profundo nesse estudo, até pelo fato de que tudo aqui era floresta”. Ele explica ainda que, para os descentes dessa geração, o projeto “tem um princípio de voltar ao que era, mas com a agricultura familiar, com a agroecologia, colhendo e tendo o controle de algumas árvores nativas que estão em extinção, podemos comercializá-las”.

Infelizmente, o contrato de apoio da FASE terminou em abril de 2021. Ainda não há data definida quanto à renovação, mas a expectativa é que a assistência continue. 

[1] Estagiário, sob supervisão de Cláudio Nogueira

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