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20/04/2020Fundo Dema

Sistema agroflorestal garante vida à biodiversidade na região Transamazônica

No município de Medicilândia, também conhecido como a capital do cacau, muitas famílias agricultoras trabalham dentro do sistema Cabruca, um modo de produção agroflorestal sem queima


Silvia Guerreiro¹

Em meio ao avanço das queimadas na Amazônia existem agricultores e agricultoras que pensam e fazem diferente. Na região da Transamazônica, no município de Medicilândia, popularmente conhecido com capital do cacau, muitas famílias trabalham na plantação da espécie frutífera dentro do sistema Cabruca, um modo de produção agroflorestal sem queima, que respeita o desenvolvimento natural da floresta, conservando a mata primária e consorciando a diversas espécies.

Foto: Fundo Dema

Pedro Ferreira Lima, agricultor em Medicilândia, começou a produzir dentro do sistema Cabruca ainda na década de 80, tendo participado do projeto “Roça Sem Queimar”, junto com Ademir Federicc, o Dema. Para o agricultor, a ajuda daquele companheiro de outros lutadores foi importante para persistir em um modelo de cultivo que valoriza o sistema agroflorestal (SAF).

Na roça de Pedro, além do cacau, outras espécies são produzidas e aproveitadas, como taperebá, pupunha laranja, banana, manga, jaca, abacate, limão, jabuticaba, abricó, tamarindo. Mas a lista não para por aí, as hortaliças e sementes também são plantadas no SAF, entre elas andiroba, copaíba, jatobá, jacarandá.

Ferreira considera que este modo produtivo deveria ser mais valorizado, tamanha a sua importância agroecológica. E por ter essa compreensão, ele procura repassar o conhecimento adquirido com os anos de experiência a vários outros agricultores e agricultoras. Ressalta que muitos jovens das Casas Familiares Rurais de Medicilândia e Altamira fazem intercâmbio para conhecer a roça cacaueira.

“O STTR [Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais] de Medicilândia, a Ceplac [Comissão Executiva do Plano de Lavoura Cacaueira] que traz turmas para conhecer a roça, e a UFPA [Universidade Federal do Pará] de Altamira, junto com a Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária], sempre me chamam para falar sobre o assunto. Tem um grupo da UFPA que tem pesquisado sobre essa região”, completa o agricultor.

Floresta viva

Ao todo, nove famílias são beneficias diretamente com a produção, chegando a um quantitativo de 15 famílias no período de safra. Boa parte do cacau colhido em Medicilândia é comercializada – por meio da Cooperativa Agroindustrial da Transamazônica (COOPATRANS), apoiada pelo Fundo Dema – para a Cacaway, a primeira fábrica de chocolate genuinamente paraense.

No entanto, Pedro Lima também dispensa a sua atenção à conservação de uma reserva ambiental, tida como uma das poucas áreas onde a biodiversidade acolhe a mais grossa árvore de Cumaru da região e onde o pássaro Uirapuru faz a sua morada. “Nosso desafio é construir um parque ambiental com segurança para manter preservada a floresta que tem uma biodiversidade sem igual e é ambiente do pássaro que está em extinção, a produção do cacau nos ajuda muito nesse desafio”, diz.

Agricultura de subsistência

No cenário de pandemia da Covid-19, Pedro compreende a importância do isolamento social e procura manter-se em casa, junto à sua família. O que produz no campo garante a subsistência de seu grupo familiar e a alimentação saudável a outras famílias, uma vez que sua produção é feita de forma agroecológica, sem a utilização de agrotóxicos. Contribuindo para a manutenção das medidas de segurança à saúde, a comercialização das hortaliças e demais produtos tem ocorrido de maneira retraída, até que a crise de saúde e sanitária seja controlada, possibilitando o retorno às atividades com menos riscos à sociedade.

[1] Matéria publicada originalmente no site do Fundo Dema. 

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