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05/05/2021Direitos HumanosFase

Com fome em alta, FASE diversifica ações de solidariedade durante pandemia

Só este ano, as unidades da FASE no Espírito Santo e em Pernambuco investiram R$179 mil na compra de alimentos de agricultores familiares. Desde o início da pandemia, a FASE mobilizou cerca de R$ 1,2 milhão para apoiar ações de solidariedade pelo país


Entrega das Cestas na ocupação Carolina de Jesus, Recife. Foto: MTST PE

O fantasma da fome, que voltou a assombrar milhares de brasileiros mesmo antes da pandemia, não assusta a educadora Débora Aguiar, de Pernambuco — ao menos enquanto a ajuda durar. “Está sendo possível ter comida na mesa, manter o consumo de carne, ter um alimento para poder pensar no alimento para o outro”, comemora a ativista e mobilizadora da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas (RENFA). Débora é uma das 114 jovens atendidas pela FASE no Rio de Janeiro e em Pernambuco, e recebe um cartão alimentação no valor de R$ 300 — apoio garantido a partir da parceria com a Oxfam.

Iniciativas como a da FASE Pernambuco minguaram em 2021. No fim do ano passado, vimos as ações de solidariedade diminuírem por todo o país. Se por um lado as elites naturalizam as mais de 400 mil mortes pela Covid, de outro a grande massa de trabalhadores da cidade e do campo precisa escolher entre a fome, o desemprego e o vírus. Na dúvida, a população, principalmente a mais jovem – que ocupa cada vez mais leitos e conta cada dia mais mortes – enfrenta transportes públicos lotados em busca do alimento ou de uma chance de trabalho. De acordo com o IBGE, a projeção do desemprego do país ficará em torno dos 14% este ano, a maior taxa desde 2012. A volta do Brasil ao Mapa da Fome é outro fator que acende o alerta de organizações que atuam na área da segurança alimentar. Em 2018, dez milhões de brasileiros estavam em níveis graves de insegurança alimentar, segundo o IBGE. A FASE, assim como diversas organizações da sociedade civil, tem se mobilizado desde o início da pandemia para enfrentar o vírus nas comunidades e territórios onde atua. Só este ano, as unidades do Espírito Santo e Pernambuco investiram R$179 mil na compra de alimentos de agricultores familiares. Os produtos são distribuídos para as famílias mais necessitadas em cada região, fortalecendo tanto o produtor, que perdeu as oportunidades de vender seus alimentos, quanto quem recebe as doações. Desde o início da pandemia, a FASE mobilizou cerca de R $1,2 milhão para apoiar ações de solidariedade pelo país. Comunidades tradicionais, quilombolas, de periferias urbanas e do campo foram atendidos, principalmente mulheres e jovens.

Dois exemplos de ação direta da FASE

Doação de alimentos em Porto Santana (ES)

Além da entrega de cerca de 300 cestas agroecológicas, o programa da FASE capixaba está apoiando o monitoramento do serviço de vacinação nas comunidades quilombolas de Conceição da Barra, São Mateus, Montanha e Jaguaré, no norte do estado. Até o dia 19 de abril, 4.176 pessoas já foram vacinadas com a primeira dose. Essas ações são apoiadas financeiramente pela Misereor e realizadas em parceria com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Associação de Pescadores, Marisqueiros e moradores de São Miguel- São Mateus, Associação de Pescadores Artesanais de Porto Santana e Adjacências (APAPS) e Federação das Associações de Pescadores profissionais, artesanais e agricultores do Espírito Santo (FAPAES), além da Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Espírito Santo Zacimba Gaba e CONAQ.

Em Pernambuco, as ações de apoio também chegam a cerca de 80 famílias moradoras da ocupação Carolina de Jesus, Aliança com Cristo, Sítio dos Pescadores e Pocotó, além de 18 lideranças urbanas moradoras das comunidades de Passarinho; Santa Luzia, Palha de Arroz, Paulista, Ocupações: Aliança com Cristo, Carolina de Jesus, Pocotó, Sítio dos Pescadores, Cavaleiro, Jardim Resistência, Ibura. Outras 20 mulheres lideranças pescadoras: Itapissuma, Goiana (Baldo do Rio, Tejucupapo, Povoado de São Lourenço/quilombo, Carne de Vaca), Sirinhaem, Rio Formoso, Jaboatão, São José da Coroa Grande, Olinda e Lagoa do Carro e 15 mulheres negras da Feira das Pretas, moradoras da periferia do Recife e Região Metropolitana, também são apoiadas.

Filhas de Jessica Lopes, participante do Juventudes nas Cidades (PE), com os recebidos da FASE.

Além de alimentos e materiais de limpeza e higiene, essas mulheres receberam cestas com produtos para o autocuidado como bolos, doces, pinturas e sais de banho produzidos por mulheres negras do Recife e Região Metropolitana. Carinho é bom, e todo mundo gota. Ou, como diz a banda Titãs, “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. Essas ações são apoiadas pela OXFAM, OAK, doações de pessoas físicas e Articulação Recife de Luta.

Não vamos e nem podemos parar

Além das ações em curso, há perspectiva de novos projetos voltados para apoio às comunidades mais atingidas e vulnerabilizadas pela pandemia. O Fundo SAAP, por exemplo, tem a previsão de distribuir mais de mil kits de higiene e alimentação durante dois meses para 19 grupos de mulheres apoiadas pelo “Projeto Costurando Moda com Direitos”, em Pernambuco, Rio de Janeiro e Ceará. As doações serão distribuídas a lideranças comunitárias e costureiras domiciliares. Ação possível a partir da parceria com a Fundação Laudes.

Ação no dia 1º de Maio no Recife. Foto: Quentin Delaroche

Em Mato Grosso, onde já foram doadas mais de 1 tonelada de sementes e mudas a agricultores familiares impactados pelas queimadas em 2020, está prevista para os próximos meses a aquisição de alimentos da agricultura familiar local. Serão cerca de R$ 100 mil empregados nesta ação. A iniciativa também marca a retomada do diálogo com os parceiros da rede de comercialização Caminhos da Agroecologia, e será viável a partir do apoio da Misereor.

A pandemia no Brasil não só continua, mas acelera em um ritmo descontrolado. Mesmo quando tudo terminar e toda a população estiver vacinada, teremos um imenso contingente de brasileiros em situação de vulnerabilidade social e abaixo da linha da pobreza. A FASE reforça o compromisso de intensificar a mobilização das organizações da sociedade civil na busca por democracia, segurança alimentar e justiça social.

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