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18/09/2019Pernambuco

Jovens negros dialogam sobre gênero, masculinidades e identidades

Atividade teve como objetivo proporcionar aos homens moradores das ocupações do MTST em Recife reflexões sobre masculinidades, relações de desigualdades de gênero e as diversas formas de violências


Léo Machado¹

Desconstruir o patriarcado e todo seu legado nos dias atuais não é tarefa fácil, ainda mais no atual contexto de exacerbação dos discursos de ódio que atingem severamente as mulheres, a população LGBTQI+ e os jovens negros. Há tempos esses grupos têm vivenciado um cenário de aprofundamento das violências e desigualdades que atingem, principalmente, os mais pobres. E mesmo que o Governo Estadual de Pernambuco² comemore redução dos crimes letais, violentos e intencionais (CVLI) em 30% em comparação aos dados de 2017 e já exista a tipificação dos casos de feminicídio, as políticas públicas direcionadas a essa população não são prioridades.

Foto: FASE PE

No entanto, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST Brasil) e o programa da FASE em Pernambuco, com apoio de OAK Fundation, têm apostado em processos de educação popular mitigatório como estratégia de aproximação dos homens com o entendimento de questões relacionadas a gênero, masculinidades, identidades e o cuidado com as crianças. Para Amanda Montenegro, coordenadora estadual do MTST, a iniciativa pensa na salvaguarda das crianças em ocupações. “O projeto “Marielle Franco” foi elaborado em 2018 e entrou em fase de adaptação e construção dos espaços coletivos em 2019, onde tem funcionado a Creche Comunitária Marielle Franco. Ainda há previsão de uma série de atividades de formação com objetivo de ampliar o conhecimento sobre as crianças como sujeitos de direitos”.

No último sábado (14), aconteceu o terceiro encontro formativo do projeto e dessa vez com homens, jovens negros e moradores de ocupações do MTST Brasil, em Recife. Ao longo do dia, dinâmicas de integração e estudo criaram um ambiente de descontração entre os participantes e os mediadores. Em pauta estavam assuntos como a divisão social do trabalho entre homens, mulheres e a devida remuneração salarial; os cuidados com os familiares, em particular crianças e idosos; as relações amorosas abusivas vivenciadas pelas mulheres; a violência sofrida pelos meninos em decorrência do machismo no estimulo prática sexual precoce; e as diversidades (sexual, de gênero e identidades).

Um dos materiais utilizados foi à leitura da sinopse e exibição do espetáculo de dança MACHO³, performance que parte do estudo sobre a construção da masculinidade hegemônica na sociedade contemporânea, questionando as normas, padrões, representações e códigos de masculinidade que são produzidos e reproduzidos por múltiplas práticas e discursos.

Homens podem. Mulheres não podem?

O sociólogo Antônio Marques, um dos facilitadores da atividade, chamou atenção do público em relação aos temas propostos. “Desde o convite para essa atividade, para mim foi uma coisa diferente, pois realizar uma oficina só com homens falando sobre os temas propostos para essa oficina foi inovador. Sempre estive com grupos masculinos falando sobre outros temas. Debater essas questões é urgente e nós homens raramente paramos para falar de gênero e masculinidades, uma construção que não deve ser feita exclusivamente pelas mulheres, nós também temos responsabilidades nisso”.

Foto: FASE PE

Já na apresentação após grupo de trabalho, Luiz Carlos, morador da Ocupação Carolina de Jesus, trouxe sua opinião respondendo às perguntas sobre “o que os homens podem fazer e as mulheres não”. “Pude refletir que não existem, ou pelo menos não deveriam existir, coisas de homens ou mulheres. Quando mulheres e homens têm o mesmo acesso a direitos e oportunidades é possível que ambos os gêneros possam exercer de modo competente suas atividades e habilidades”.

No entendimento de Thiago Paraíba, coordenador estadual do MTST, o momento foi fundamental. “A oficina é uma iniciativa importantíssima dentro do projeto, principalmente porque esse momento foi exclusivo para os homens, pois esses debates, em geral, se limitam às companheiras das ocupações. É importante que os homens se percebam parte desse processo como agentes de reprodução dessas violências. A atividade impulsionou um novo olhar sobre esse debate nas ocupações, trazendo também os homens a responsabilidade no cuidado com as crianças, com a ocupação, com a casa e principalmente promovendo a desconstrução da reprodução das violências. Foi a primeira vez que pude contribuir em um diálogo com essa temática”. Thiago ainda aponta outro aspecto relevante da atividade, o fato de os participantes serem negros. “Homens negros estão expostos as contradições desse lugar de privilégio, pois é imposto a este individuo a violência institucional. O diálogo oportunizou aos homens das ocupações, a partir do viés racial, o entendimento de que mesmo homens, eles estão vulneráveis as diversas formas de violência porque são negros”.

Como encaminhamento, os presentes na oficina acordaram que como desdobramento, esse diálogo tem que acontecer em cada das ocupações, ampliando ainda mais a informação e promovendo o conhecimento para outros homens.

[1] Educador do programa da FASE em Pernambuco.

[2] Jornal Folha de Pernambuco.

[3] Macho.

 

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