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24/03/2020Pernambuco

PE: O impacto do Covid-19 na vida das juventudes

Como os jovens estão enfrentando a pandemia do novo coronavírus? Léo Machado, educador da FASE em Pernambuco, ouviu alguns jovens sobre seus dilemas e desafios


Léo Machado¹

As incertezas na vida das juventudes pernambucana são muitas e as desigualdades se agravam em épocas de Covid-19. Os limites impostos na inclusão econômica e a pouca escolarização tem dado o tom em meio à crise mundial na perpetuação do modelo escravocrata em que se estruturou o Brasil. Há muito, temos informado a população em nossos canais de comunicação o quanto tem sido posta em vulnerabilidade a vida das e dos jovens em Pernambuco, sendo negado a uma grande parte o direito de ter melhores condições de vida, com segurança alimentar e acesso a saúde. Infelizmente, o ultraliberalismo econômico nunca enxergou essa parte da população, para além de mera força de trabalho da acumulação primitiva do capital. As juventudes estão organizadas em uma pirâmide onde os “mais escolarizados” com acesso a tecnologia, bens e serviços privados (educação e saúde prioritariamente) e os públicos ligados ao saneamento, ocupam notáveis postos de trabalho e gozam das oportunidades promovidas por grandes corporações em seus programas de estágio, de trainee, júnior, sênior entre outras possibilidades que dão condições econômicas, garantias sociais e manutenção plena da vida.  

Jovem Ambulante no Metrô do Recife. (Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem)

Já a realidade das juventudes que estão nas periferias urbanas na Região Metropolitana do Recife (RMR) e na Zona Rural no interior do estado, a realidade é bem diferente! Se de um lado existe o “tipo social de jovem” na sociedade pernambucana que pode alcançar a condição de “pessoa humana”, a esses em questão, sabrecai a condição de “objeto” os tornando alvo da necropolítica que os impõem a exploração, o encarceramento e o extermínio. A conclusão é simples, basta analisarmos as condições de desigualdade e pobreza das comunidades na qual esses jovens estão inseridos, onde os serviços públicos de saúde e saneamento são deficitários ou inexistentes. Em algumas áreas o simples ato de lavar bem as mãos e ter acesso a água tratada é facultado e algumas localidades chegam passar 15 ou 30 dias sem o abastecimento de água potável.

Não se limitando a esse cenário insalubre de pouca atenção dos governos, o medo de viver, a internalização dos conflitos da vida social no psicológico tem promovido também o adoecimento mental, não possibilitando uma crítica ao mundo informacional e promotora da informalidade aderente do discurso retórico de quem diz que está “chegando junto”. O trabalho desprovido de direitos se projeta como alternativa de inclusão econômica, mas torna o que é autônomo invisível e individualizado, propondo às juventudes a falsa sensação de empresários e empregados de si mesmo.

Os jovens com a palavra

Os direitos econômicos, sociais, políticos, culturais e ambientais das juventudes em Pernambuco nesse momento, cabem bem no pensamento de Ricardo Antunes: “A democracia do nosso tempo é uma espécie de tabuleiro controlado pelo dinheiro”. Pois bem, os jovens que têm condições adequadas de saúde, saneamento e acesso a dinheiro, irão superar a crise. E quem não tem? Superará ou não. Algumas estratégias através de redes de solidariedade, como distribuição de alimentos, produtos de higiene e limpeza têm sido adotadas para atender essa população em seus territórios.   

Felicia Panta, agricultora do município de Triunfo, critica o acesso à informação. “É necessário que as informações atinjam todos os públicos. Somente desta forma teremos condições de conter o vírus. O isolamento social é de extrema importância para evitar a contaminação pelo vírus. Porém, nem todas as pessoas tem a chance de poder ficar isoladas. Esse é um dos pontos mais problemáticos que a comunidade vem enfrentando”. Ela ressalta que ficar de ‘quarentena’ não é um benefício para todos os indivíduos, a necessidade de continuar com as atividades se torna maior do que o cuidado com a própria saúde. “Acho que o grande impacto que temos é na questão da geração de renda, não só para os jovens do meio rural, mas também para os jovens da zona urbana”

Nena Aquino, moradora da cidade do Recife, ressalta que sua crítica não é sobre a quantidade de informações em relação ao Covid-19, mas sobre sua inteligibilidade e possibilidade de, na prática, fazer a higienização. “O Sistema Público de Saúde (SUS) não está apto a suprir a demanda da população, desde a distribuição de kits de higiene e prevenção até a testagem e atendimento da comunidade. As informações são pouco consistentes que navegam com rapidez pelos veículos de comunicação, a falta de acesso a materiais de prevenção como máscaras e álcool em gel são parte de problemas que sempre estiveram presentes, como a alimentação precária e a falta de saneamento básico. A quarentena seria relevante se não fosse um privilégio de classe, uma vez que a maior parte da população na minha comunidade [Roda de Fogo, Zona Oeste] está no mercado informal de trabalho ou em empresas que terceirizam serviços. O pânico disfarçado de alerta causado pelo estado e pelo Mercado através da mídia é uma forma de controle sócia”.

Tone Cristiano, de Bom Jardim, diz que as medidas adotadas e as informações têm colocado a população em alerta. Minimamente, a população deveria ler e se apropriar das informações. Por outro lado, os governos deveriam fornecer máscaras, álcool e suprimentos para toda população nesse período de isolamento. Como é que as pessoas que não tem dinheiro vão comprar uma garrafa de álcool em gel por R$ 40?  É uma mudança de rotina jamais vista. Nos da zona rural não estamos ainda tão preocupados com a falta de comida, mas acredito que nas cidades é bem diferente. Sejamos solidários uns com outros e agora todos temos um só inimigo, o Covid-19”.

[1] Educador do programa da FASE em Pernambuco.

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