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03/05/2017Pernambuco

Petróleo: o que Suape tem com isso?

Em abril, o Fórum Suape realizou seminário onde foram discutidos a relação entre indústrias petrolíferas e as violações de direitos


Rosilene Miliotti¹

Com o objetivo de discutir os impactos das indústrias da cadeia do petróleo do Complexo Industrial Portuário de Suape (CIPS), o Fórum Suape² realizou, em Recife, o seminário “Petróleo: o que Suape tem com isso?”. Na programação, palestra sobre mudanças climáticas e petróleo, mesa de discussão sobre as consequências socioeconômicas e ambientais, além de exposição de fotografias e vídeos sobre os impactos da exploração petrolífera. Outros temas como investimento, sociedade e alternativas também estiveram na pauta do encontro.

Marcelo Calazans, da FASE no ES, fala sobre a campanha Nem um Poço a Mais.

Para os organizadores do evento, o crescimento econômico da região decorrente da construção do Complexo não pode vir às custas da vida dos moradores. “Os impactos nas suas diferentes formas são evidentes, e queremos levar aos diferentes setores da sociedade, que é possível outra forma de desenvolvimento que leve realmente em conta as necessidades básicas das pessoas e a preservação ambiental”, afirmam em manifesto.

O CIPS é composto de um porto, estaleiros e mais de 100 grandes empresas industriais de diversos tipos, entre elas a refinaria de petróleo Abreu e Lima, da Petrobras, e outras indústrias do ramo petroquímico. Suape é considerado pelos governos estadual e federal como um dos mais importantes projetos de desenvolvimento econômico do país. No entanto, a intervenção naquela região tem se caracterizado por uma série de violações de direitos humanos e pela insustentabilidade. Para a coordenadora do programa da FASE em Pernambuco, Rosimere Nery Peixoto, há uma falsa ideia de desenvolvimento passada pelos meios de comunicação não se retrata de fato o que está ocorrendo nas comunidades, como essas famílias estão sendo retiradas de sua moradia. “É importante que a sociedade possa ver o que está acontecendo de fato com essas famílias que viviam na região onde está instalado o Complexo de Suape. Eles pescavam e trabalhavam. Agora foram tirados de lá para viver em lugares pequenos onde não há área de plantação”, denuncia.

Agricultores e pescadores foram expulsos e perderam suas terras diante da violência praticada pelo CIPS, efeitos da falta de transparência e de diálogo. O Fórum chama atenção ainda para o aprofundamento das demandas sociais e levanta questões como “qual o preço a ser pago pela sociedade do petróleo? É possível pensar e aprofundar a busca de outras matrizes e fontes energéticas que não poluam nem destruam a natureza?”. Para Veralucia Domingos de Melo, presidente da Associação dos Pequenos Agricultores de Pontes dos Carvalhos, o seminário foi uma oportunidade de conhecer ativistas, trocar experiências e ter acesso à pesquisas sobre o tema. “As pessoas precisam ter consciência do mal que a exploração de petróleo tem causado a humanidade”, alerta. Vera, como é mais conhecida, chama atenção também para o fato de que esse tipo de informação não ganhe destaque na mídia comercial. “A mídia comercial utiliza do marketing para transmitir as corridas no domingo, falar sobre cosméticos, mas não dos malefícios que a exploração desordenada do petróleo causa ao meio ambiente, ao planeta e às pessoas. Petróleo bom é petróleo no poço. Eu sei que vivemos em um país capitalista onde explorar sempre é melhor do que conservar, mas é preciso empenho e divulgação das alternativas”, explica. 

Rosimere ressalta ainda que o modelo de desenvolvimento adotado precisa ser revisto e que a sociedade deve pensar sobre o assunto. “Esse é um modelo que não respeita o modo de vida das populações tradicionais que vive nessas áreas há muitos anos. Não somos contra o desenvolvimento, muito pelo contrário, mas temos que pensar que esse desenvolvimento precisa considerar as pessoas e o meio ambiente e não ao contrário”. Ela conclui dizendo que o fórum tem realizado muitas ações de denuncia, mas que também fazem ações de informação e formação junto às comunidades para que agricultores e pescadores possam denunciar e que sejam vistos como pessoas humanas e com direito a uma vida digna. Vera completa dizendo que o nome da campanha Nem Um Poço a Mais chamou sua atenção porque para ela é isso, “sem mais poços” e que os bilhões investidos na retirada de petróleo fossem direcionados para educação, saúde, para a melhoria de vida das pessoas.

Porto Suape. Foto: Reprodução

Encaminhamentos

Como propostas e compromissos, os participantes do seminário assumiram ações como a criação de uma rede de apoio às comunidades de Suape e de outras atingidas, o registro de histórias e a construção de “museus vivos”, a realização de intercâmbios entre as experiências de luta das várias regiões, o fortalecimento de vínculos com grupos de juventudes locais. Além disso, a realização de campanhas de solidariedade, para levar ao Ministério Público, Secretaria de Saúde, visando o fortalecimento do cotidiano das mulheres, o fortalecimento do trabalho sobre a saúde das mulheres pescadoras e o apoio e fortalecimento às famílias que foram violadas e se encontram em dificuldades, entre outras.

Está previsto ainda o lançamento do Relatório de Violências em Suape, um documento que irá reunir todas as violações feitas durante a implementação do CIPS como crimes ambientais, expulsões de comunidades tradicionais, atuação de milícias e os impactos sociais. O objetivo é a publicação sirva como base para recomendações para diferentes atores, gerando mudanças concretas e auxiliando na sistematização das demandas do Forum.

[1] Jornalista da FASE.

[2] Iniciativa composta por instituições e militantes que contestam a maneira como vem acontecendo a implantação do CIPS, do qual a FASE é parte.

 

 

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