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16/02/2016Mato Grosso

Povo indígena Chiquitano celebra carnaval em tradicional festa no Mato Grosso

A celebração indígena representa o começo do mundo, quando os antepassados pararam para descansar e celebrar. A festa foi organizada pelas aldeias Acorizal e Fazendinha membros do Grupo de Intercâmbio em Agroecologia (Gias)


foto Fran Paula e Sandra Regina Gomes_FASE
Celebração representa o começo do mundo. (Foto: Fran Paula/FASE)

No sudoeste do estado de Mato Grosso, o tradicional ‘Curussé’ celebrado nas aldeias Chiquitanas Acorizal e Fazendinha, situadas na Terra Indígena Portal do Encantado, na fronteira com a Bolívia, se somou aos demais ritmos do carnaval brasileiro. Trata-se de uma festividade carnavalesca religiosa da etnia dos Chiquitanos, na qual, durante quatro dias, cortejos percorrem as casas das aldeias ao som das percussões, instrumentos de vento, cantos, danças e brincadeiras, atirando água, carvão e lama nos participantes. A celebração inclui, também, uma culinária típica, como a ‘chicha’, bebida fermentada de milho, a ‘patasca’, sopa de cabeça de porco e milho, e ainda bolinhos de arroz.

Rosário, uma matriarca Chiquitana, explicou que a celebração representa o começo do mundo, quando os antepassados pararam para descansar e celebrar. No entanto, a matriarca diz que a língua e a cultura dos Chiquitanos estão se perdendo ao longo dos anos. “Nós, os anciões, já não temos com quem falar”, entristeceu. Já Alexandra Mendes Leite, uma das organizadoras e representantes do povo Chiquitano, explicou que o próprio Curussé quase foi extinto. “Um dia nossa festa quase acabou, quando quase perdemos nosso território por causa das várias ameaças que sofremos. Hoje, continuamos nessa luta, nos fortalecendo através de nossa cultura e união, valorizando nossas tradições e história”, disse.

Para garantir a perpetuidade da cultura, conhecimentos e tradições como o Curussé, danças ou pinturas corporais estão sendo repassadas para a juventude. Josair Espinoza, um dos jovens das aldeias, relatou que prefere passar o carnaval no local ao invés de ir para a cidade. “Participei do Curussé desde pequeno e hoje já toco a caixa e estou aprendendo a tocar o pífano. Isto é a tradição do nosso povo e nós jovens pretendemos levar essa cultura para frente”, declarou.

Nas brincadeiras se atira água, carvão e lama. (Foto: Sandra Regina Gomes/FASE)
Nas brincadeiras se atira água, carvão e lama. (Foto: Sandra Regina Gomes/FASE)

Na terça-feira de carnaval o dia terminou com um ritual de agradecimento e penitência, já pensando no período quaresmal que se aproxima. O Curussé só acaba na quarta-feira de cinzas, após um último dia de celebração. A festa foi organizada pelas aldeias Acorizal e Fazendinha, ambas da cultura e identidade do povo Chiquitano e membros do Grupo de Intercâmbio em Agroecologia (Gias). Nelas os indígenas defendem os valores da agroecologia através da Associação Niorsch Haukina e da Associação Produtiva Indígena Chiquitana (Apic).Franciléia Paula de Castro, educadora da FASE no Mato Grosso, esteve na celebração cultural realizada entre os municípios de Porto Espiridião e Pontes e Lacerda, comentou que ficou impressionada com a dedicação e animação dos Chiquitanos. “É muita brincadeira. Se limpar [do carvão e da lama depois] é difícil, mas é gostoso de ver e participar. Afinal, a agroecologia também é constituída pelos valores e culturas dos povos”, disse.

[1] Edição de texto publicado originalmente pelo Gias, do qual a FASE é parte.

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