Élida Galvão
08/10/2026 11:42

Reunindo indígenas das regiões da Transamazônica, Baixo Amazonas e BR 163, o Fundo Dema realizou o Seminário Final do Edital Povos Indígenas: Fortalecendo Alianças por Justiça Climática, com o objetivo de compartilhar o resultado de dez iniciativas coletivas apoiadas nos respectivos territórios. A atividade ocorreu durante os dias 22 e 23 de setembro, no município de Altamira (PA).

Vindos do Baixo Amazonas, Transamazônica e BR 163, indígenas trocam experiências sobre iniciativas apoiadas pelo Fundo Dema

A programação foi iniciada com uma roda de conversa sobre o protagonismo dos povos indígenas na defesa da biodiversidade, do território, da cultura e dos modos de vida ancestrais. Entre os convidados para este momento de diálogo, estiveram presentes os professores William César Domingues (Uwira Xakriabá) e Maristela Marques da Silva, da Universidade Federal do Pará (UFPA)/Altamira; Marlison Barreto, da Associação Comunitária da Vila de São Miguel (ASCOVISM); Katrina Liiri Tunayana, da Associação Indígena Katxuyana, Tunayana e Kahyana (AIKATUK); Edilene Munduruku, da Associação Indígena Poxo Kao Kao Praia do Índio (AIPK) e Anderson Tapuia, representante do Conselho Indígena Tapajós Arapiuns (CITA) no Comitê Gestor do Fundo Dema.

Em uma abordagem sobre a identidade e a conexão ancestral indígena na proteção de suas terras sagradas, Uwira Xakriabá, falou sobre a relação afetiva, cultural e social que estes povos têm com o território “Quando a gente fala em demarcação e proteção de terra, o não indígena entende como posse, produto, que ele pode comprar, vender, ser dono, mas nós estamos falando de relação, de relacionamento com o território que nos pariu. Nós somos expressão viva do território que nós constituímos, nós somos parte dele”, destacou.

Tendo acompanha do todo o andamento do Edital, Anderson Tapuia falou do apoio do Fundo Dema a uma diversidade de projetos que incluiu o fortalecimento cultural e da ancestralidade, da economia dos povos da floresta, das brigadas de incêndio e da defesa territorial. “Antes da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira, os povos indígenas da região da Transamazônica estavam articulando o Fundo Indígena do Xingu (FIX) e, com a construção da hidrelétrica, houve uma baixa nessa articulação. Portanto, a realização deste Edital específico de apoio aos povos indígenas foi uma grande jornada que partiu da escuta aos territórios, da demanda dos povos indígenas sobre as temáticas apoiadas, que vão de brigadas de incêndio à questão da espiritualidade”, pontuou.

Graça Costa, presidenta do Comitê Gestor do Fundo Dema, afirmou que é possível perceber a importância das iniciativas coletivas e o impacto que provocam na vida das comunidades a partir dos resultados, que incluem a ampliação de parcerias e acessos a políticas públicas. “Enquanto Fundo Dema não temos a pretensão de substituir a política pública, porque isso é dever do Estado, mas nós temos a possibilidade de induzi-la. Quando surgem essas possibilidades de parcerias com o poder público, de criação ou acesso às políticas públicas por meio dos projetos apoiados, eu acho que a gente cumpriu bem o nosso papel como sociedade civil, enquanto Fundo Dema. Saímos desses espaços fortalecidos nessa perspectiva”.

Em defesa do território e do clima

O Edital de apoio aos povos indígenas apoiou quatro projetos voltados ao fortalecimento de brigadas e combate a incêndios, cinco projetos voltados ao fortalecimento da cultura, arte e ancestralidade e um projeto com foco na produção de alimentos saudáveis.

Representantes de projetos apoiados dialogam sobre o protagonismo indígena em defesa da Amazônia

Marlison Barreto, cacique da aldeia São Miguel Arapiuns, localizada na Reserva Agroextrativista Tapajós Arapiuns, em Santarém (PA), esteve à frente da coordenação do projeto “Fortalecimento da Cadeia Produtiva da Economia Indígena da Aldeia São Miguel Arcanjo”, realizada ASCOVISM. De acordo com a liderança, o território tem sofrido com as mudanças climática, que têm alterado bastante os modos de vida da população local. No verão, a seca tem provocado insegurança alimentar, deixando as aldeias isolados e, dificultando os atendimentos à saúde e educação. Isso sem contar com a invasão de madeireiros e a contaminação do por mercúrio da exploração mineral que ocorre no Alto Tapajós.

Com o objetivo de minimizar os impactos das queimadas no tempo da estiagem, a comunidade São Miguel formou uma equipe de brigadistas a partir do projeto apoiado pelo Fundo Dema. Com isso, conseguiram equipar a brigada e promover parcerias com órgãos públicos para o recebimento de capacitação técnica, além de intercambiar experiências com outras comunidades para o controle do fogo.

Ao todo foram formados 24 brigadistas, sendo 13 somente da comunidade São Miguel, envolvendo jovens, idosos e mulheres no processo, que reuniu pessoas de outras aldeias. “Entre os resultados que nós tivemos é que fomos chamados algumas vezes para participar de palestras, rodadas de conversas e seminários para compartilhar nossas experiências. A gente não tinha conhecimento do plano de manejo integrado do fogo dentro da Resex. Eu só fui conhecer quando comecei a participar da capacitação. Agora a gente tá repassando para os nossos parentes, fortalecendo a nossa capacidade de resposta em situação de emergência. Fizemos parceria com o ICMBio, que nos possibilitou a capacitação técnica e o Fundo Dema nos apoiou na compra dos equipamentos. Quando nós fomos para a prática, vimos que não é tão simples como nós pensávamos. Esperamos ampliar a participação de outros membros da comunidade e ampliar também para outras aldeias dentro do nosso território para que nós possamos combater incêndios florestais.”, relatou Marlison.

Fortalecendo a atividade socioeconômica por meio do artesanato

Rememorando os tempos de infância, a liderança indígena, Edilene Munduruku, relatou que, quando criança, costumava sair para pescar com seu avô, porém, atualmente, esta tem sido uma prática cada vez mais difícil em razão da interferência das pessoas não indígenas no território. De acordo a indígena, o avanço do turismo comunitário acabou trazendo muitas consequências aos modos de vida tradicionais.

Da esquerda para a direita: William Domingues, Anderson Tapuia, Maristela Marques, Marlison Barreto, Katrina Liiri Tunayana e Edilene Munduruku

“Eu costumava andar com o meu avô quando ele ia pescar, quando ia visitar os parentes nas outras áreas. Ele ia de devagarzinho na canoa porque ia olhando as matas, observando onde tinha mais jacitara para ele tirar, para ele fazer os tipitis, os paneiros, caçar, coletar semente para fazer o remédio tradicional. Então eu aprendi com ele a reconhecer os espaços, que agora estão perdidos, porque os residenciais chegaram na nossa área de caça. A gente tá lá caçando no meio da mata e a gente escuta os cachorros latindo, as galinhas cantando, a motosserras lá derrubando as árvores. Não é mais uma mata segura para se caçar, porque tem muita gente andando por lá”, lamenta Edilene, cujo território onde vive sofre ainda com a contaminação e a escassez das águas. “Hoje os nossos rios estão totalmente contaminados pelo garimpo e pelas lavouras [que jogam veneno no solo], sem contar com a falta de água no período do verão, que não nos permite criar animais e nos prejudica no plantio”, completa.

Edilene vive no território Sawre Muybu, situado no município de Itaituba (PA). A Terra Indígena abriga duas aldeias, a Praia do Índio e a Praia do Mangue. As famílias que ali estão chegaram ao território no fim da década de 1960, como é o caso da família de Edilene. Ao longo dos anos, a cidade foi se expandindo para o território indígena e atualmente as aldeias estão cercadas por empreendimentos, residenciais e portos de combustivel. “As pessoas dizem que não deveria ter indígenas aqui na cidade. Imagina, a gente não veio pra cidade. A cidade que veio até nós. Quando nós chegamos aqui não tinha cidade. Nós perdemos espaço. Não só nós, os pescadores artesanais também. Para caçar e pescar, a gente tem que disputar com os não indígenas”, lamenta a indígena Munduruku.

Com a dificuldade em manter a subsistência por meio da caça e da pesca, as famílias da aldeia Praia do Índio resolveram fortalecer a economia por meio da produção artesanal e criaram o Centro de Artesanato Korap Mugun, que desempenha um importante papel na manutenção da tradição cultural e ancestral indígena, incluindo jovens e adolescentes em suas atividades e auxiliando na redução da vulnerabilidade socioeconômica.

Por meio do projeto “Fortalecendo o Centro de Artes da Aldeia Praia do Índio, Korap Mugum: Cultivando Cultura e Tradição”, realizado pela Associação Poxo Kao Kao (AIPK) e apoiado pelo Fundo Dema, as famílias da Praia do Índio trabalharam na revitalização do Centro, promovendo o fortalecimento da produção dos artesanatos dos artesanatos indígenas Munduruku, que vão desde adornos com miçangas a peças feitas com argila e cerâmica.

A melhoria no espaço de trabalho foi fundamental para a conservação e modernização dos equipamentos, para a ampliação da capacidade de produção, contribuindo, assim, para um aumento significativo na renda dos artesãos e artesãs.

Resistência cultural e ancestral

Durante o período da ditadura militar no Brasil, com o projeto de integração nacional e a ocupação da Amazônia, dezenas de grupos indígenas foram retirados à força de suas terras para que não atrapalhassem os planos de desenvolvimento na região. A ação coordenada de violação de direitos, que envolveu missionários e o próprio Estado, atingiu também os povos indígenas Katxuyana, Kahyana, Tunayana e muitos outros Yanas, retirando-os de seus territórios originários e sagrados localizados próximo aos rios Katxuru (Cachorro) e rio Kahu (Trombetas), no estado do Pará. O destino da maioria foi o Parque Nacional Indígena do Tumucumaque, na fronteira com o Suriname.

Participantes do Seminário, à beira do Rio Xingu, na Universidade Federal do Pará, em Altamira (PA)

No ano de 2000 iniciou-se a retomada destes povos aos seus lugares, quando as primeiras famílias voltaram aos seus territórios com o objetivo de unir novamente os parentes, fortalecer os modos de vida e a relação com a natureza. Porém, embora tenham reocupado seus verdadeiros espaços, os povos Yana passaram a conviver com perigos iminentes. A TI Kaxuyana-Tunayana está ameaçada por diversas atividades ilegais, entre elas, o turismo ilegal de pesca esportiva, que provoca insegurança alimentar e causa vulnerabilidades aos povos; a invasão de madeireiros, grileiros, fazendeiros no território, os quais assediam parentes e geram conflitos sociais entre eles, fragilizando a união dos povos, enfraquecendo o movimento interno dos indígenas e o elo com a espiritualidade.

De forma a reestabelecer o equilíbrio entre a saúde da floresta e a saúde dos Yanas, a Associação Indfígena Katxuyana, Tunayana e Kahyana (AIKATUK) realizou o projeto “Nak’kïmnyarï – Práticas ancestrais Yanas”, com o objetivo de realizar a transmissão intergeracional de conhecimentos ancestrais praticados pelos povos Yanas, cujas práticas foram interrompidas pela influência de missionários durante a ditadura militar.

O projeto possibilitou evidenciar a importância da espiritualidade para os Yanas a partir da relação de existência destes povos com o cosmo e o impacto direto na saúde, educação e cultura, criando um elo com a natureza, ressignificando os valores e a conexão com o território originário. A iniciativa promoveu encontros entre o tempo ancestral e o atual, reunindo anciãos e jovens em rituais com cantos, roupas, adornos, bebidas e alimentos tradicionais, para trocar transmitir conhecimentos e saberes de forma a conectar o bem-estar físico-espiritual dos seres humanos e não humanos com o bem-estar da floresta.

Um dos encontros aconteceu na TI Tumucumaque, com a participação de jovens, idosos e crianças. A atividade promoveu um profundo reencontro familiar e cultural, evidenciando a resiliência dessas comunidades diante das barreiras geográficas, logísticas e das ameaças externas que ainda desafiam a soberania de seus territórios.

As boas condições do ambiente são fundamentais para a celebração da vida e da alegria dos Yanas. A bebida dos rituais, por exemplo, é feita com micro fungos, que só existem se a floresta estiver saudável. “Não é todo pássaro que pode usar para fazer um txamatxama (coroa típica feita com penas de gavião), precisa escolher qual o espírito está falando contigo, precisa cantar sobre o pássaro. Este é um adorno sagrado e não pode ser usado em qualquer lugar. A gente tá muito feliz, porque ao fazer esse projeto, a gente se reencontrou com a gente também. E mesmo assim não perdemos a conexão com o Tumucumaque, onde ficaram os nossos sabedouros, quem a gente chama de pai. O projeto criou momentos de convivência e aprendizado direito com os detentores dos conhecimentos tradicionais”, relatou Sirito Yana, da AIKATUK.

A luta histórica e o retorno dos povos indígenas Kaxuyana, Tunayana e Kahyana às suas terras tradicionais de origem foi fortalecida com a homologação TI Kaxuyana-Tunayana, ocorrida em 17 de novembro de 2025, enquanto um ato vital de reparação histórica aos traumas da expulsão durante a ditadura militar. O projeto comunitário apoiado pelo Fundo Dema permitiu não apenas a recuperação de saberes ancestrais, como a confecção dos tradicionais cocares txamatxama e rituais de canto e dança, mas também fortaleceu a união entre gerações e a preservação ambiental da Amazônia.

*Comunicadora do Fundo Dema