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05/03/2021Direito à cidadeMulheres

#8M: Mônica Oliveira fala sobre a luta por cidades mais justas para as mulheres

Na série “O que você deseja para as mulheres?”, conversamos com quatro ativistas sobre direito à cidade, justiça ambiental, segurança alimentar e direito das mulheres


Alcindo Batista¹ e Rosilene Miliotti²

A partir de hoje, a FASE dá início à série “O que você deseja para as mulheres?”, em comemoração ao Dia Internacional da Mulher. Até segunda-feira (8), quando é celebrada a data, estaremos entrevistando diariamente mulheres que são referência quando os assuntos são o direito à cidade, justiça ambiental, direito das mulheres e segurança alimentar. Todas contaram um pouco das suas histórias, os desafios que elas enfrentaram ao longo de suas trajetórias e o que faz com que elas queiram continuar na luta por justiça, por igualdade e por respeito às diferenças. No final, elas deixam a sua mensagem de fé e resistência contra o retrocesso que aumenta ainda mais a desigualdade social e de gênero. E na nossa estreia, conversamos com a educadora e comunicadora pernambucana Mônica Oliveira. Boa leitura!

 

Mônica Oliveira

Mônica Oliveira é do Recife, educadora, comunicadora, assessora parlamentar das Juntas Codeputadas (grupo com mandato coletivo na Assembleia Legislativa de Pernambuco) quando as pessoas que compõem a chapa decidem em conjunto as decisões daquela candidatura), ativista da Coalizão Negra Por Direitos e da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco. Mônica iniciou sua militância aos 15 anos, em um grupo de jovens que trabalhava na perspectiva da teologia da libertação, do trabalho de Dom Hélder Câmara por uma Igreja que atuasse junto ao povo para enfrentar as desigualdades.

Conversamos com a educadora sobre a dimensão do cuidado, as dificuldades e desafios das mulheres nesta pandemia, e os constantes ataques e retrocessos de direitos.

FASE: O que te faz continuar na luta contra as desigualdades?

Mônica Oliveira: Me sinto muito feliz de poder colaborar com a formação de outras pessoas, principalmente de jovens e mulheres. O crescimento das pessoas me ajuda a crescer, pois os processos educativos são processos de troca. E o que me inspira, me faz continuar, é que a tarefa não está concluída ainda. Dediquei a minha vida quase toda ao combate ao racismo, ao combate ao patriarcado, ao sexismo, à discriminação de classe, ao capitalismo e tudo de ruim que esses sistemas de opressão significam na vida das pessoas. Combater esses sistemas de dominação é uma tarefa árdua, porque o sistema é muito sofisticado, se renova, e os desafios retornam. Às vezes até crescem.

Cada pessoa negra que eu acompanho mudando, se afirmando, passando a orgulhar-se da sua condição, se afirmando profissionalmente, politicamente… pra mim cada pessoa conta e isso me faz continuar: a possibilidade de continuar colaborando para mudança na vida das pessoas.

FASE: A mulher é sempre vista e posta no lugar do cuidado, e nas cidades isso ficou muito forte, principalmente com a pandemia. Como você percebe a mulher nesse aspecto? Ela já está lá ou é colocada?

Mônica Oliveira: Esse lugar do cuidado é quase inescapável para nós. Na maioria das situações, as mulheres nem tem a opção de querer ou não ficar nesse lugar. O que não podemos é naturalizar a exploração das mulheres no trabalho do cuidado. Também busco politizá-lo. Assim como as mulheres ativistas, o movimento feminista tem buscado, ao longo do tempo, politizar esse lugar. E o que eu quero dizer com politizar? Reconhecer que não obrigatoriamente precisa ser feito pelas mulheres, que os homens podem compartilhar tarefas de cuidado, porque elas não se resumem ao ambiente doméstico e familiar.

Foto: Oxfam Global

Nas instituições e nos movimentos, por exemplo, a tarefa de cuidar do lugar onde funciona o escritório, trabalhos de secretaria, recepção e atendimento, normalmente são classificados como tarefa de mulher, que não são trabalhos domésticos propriamente, mas estão no ambiente do trabalho e da militância. A gente precisa estar atento e precisa politizar sim. A OXFAM tem feito pesquisas no sentido de mensurar economicamente essas tarefas do cuidado, e os dados são bastante significativos. Estamos falando de algo em torno de US$ 10 trilhões por ano no mundo. O sistema capitalista se beneficia com o trabalho das mulheres dessa forma não remunerada, e isso precisa ser problematizado.

Na pandemia isso ficou muito explícito, e o que me entristece e indigna é que, mesmo percebendo  o valor e a necessidade dos trabalhos das mulheres, isso não tem significado que as mulheres acessem melhores condições de trabalho, melhores salários ou condições mais dignas, vide as tarefas do trabalho doméstico, empregadas domésticas, diaristas, o pessoal de limpeza. Todo esse trabalho, que é fundamental, na pandemia se percebeu como faz falta quando não tem, mas isso não tem significado, valorização.

FASE: A primeira morte confirmada por Covid-19 foi a de uma mulher negra, empregada doméstica, e que contraiu o vírus da patroa que não abriu mão do seu trabalho, mesmo estando contaminada. Eu queria que você comentasse sobre o caso da Mirtes Souza, empregada doméstica que deixou o filho Miguel com a patroa enquanto cumpria ordens de passear com o cachorro da família. O menino caiu do prédio e morreu.

Mirtes e Miguel. Foto: Arquivo pessoal

Mônica Oliveira: A pandemia explicitou muitas coisas, que não são novas, mas essas desigualdades se aprofundaram. E na questão do trabalho doméstico, o exemplo que você traz de uma trabalhadora doméstica já idosa, com mais de 60 anos, que foi obrigada a continuar trabalhando com patrões doentes e que vieram contaminados da Europa, é um absurdo.

A situação com Mirtes também. O estado de Pernambuco não estabeleceu que o trabalho doméstico era uma atividade essencial, então, a princípio, os patrões de Mirtes não poderiam estar convocando ela e a mãe dela, que trabalhavam na mesma casa, para estarem trabalhando durante a pandemia. Mas eles não abriram mão do trabalho delas em nenhum momento. A morte de Miguel, que é um fato trágico, demonstra essa precariedade que cerca o trabalho doméstico, mas demonstra também outros elementos quando a gente analisa o trabalho doméstico no Brasil, que é por exemplo a herança escravocrata e racista das relações trabalhistas entre patrões e empregadas domésticas.

O trabalho doméstico é a categoria que mais herdou essa tradição escravocrata das relações. As denúncias de mulheres, e aí mulheres negras, nas condições de trabalho escravo em famílias como trabalhadoras domésticas, mostram que casos e mais casos estão surgindo o tempo todo na imprensa. Por qual motivo a sociedade brasileira convive tranquilamente com isso? Por qual motivo a sociedade brasileira não se indigna com isso? É patriarcado. É racismo, e a descriminação profunda de classe que permeia esse país.

FASE: Como você percebe a atuação das mulheres na luta pelo direito à cidade, e quais são os desafios?

Mônica Oliveira: A pauta do direito à cidade me é muito cara. Já trabalhei em duas organizações diferentes, a OXFAM e a FASE, com a agenda das questões urbanas, do direito à cidade, e ela é uma pauta, para nós mulheres, fundamental, porque está no cotidiano da gente. Acesso a água, ao saneamento, transporte público, habitação…várias dessas pautas estão no cotidiano das mulheres, e são agendas de lutas que aterrissam no chão das cidades. Acredito que seja uma pauta que avançou dentro da agenda do movimento feminista, mas que precisa avançar mais.

Acho que tem um desafio pelo fato de o movimento feminista e também, em sua medida, o movimento negro, terem pautas muito macro, e essas demandas cotidianas da água e do transporte nem sempre tem o peso adequado nessas agendas de luta. Eu acho que essa é uma autocrítica que precisa ser feita, também para o movimento investir e incorporar mais essa agenda. Por outro lado, os movimentos e as ONGs também vêm percebendo como é fundamental incorporar a leitura de raça e de gênero ao seu trabalho, e como ele pode crescer e se tornar mais consistente se essa leitura quanto de direito à cidade estiver resumida à questão de classe.

FASE: Ainda nessas questões sobre os desafios, vamos falar dos retrocessos políticos que têm sido muito fortes nos últimos tempos, tanto para mulheres como também para as cidades. Você consegue analisar os impactos desses retrocessos na vida das mulheres nas cidades a curto, médio e longo prazos?

Mônica Oliveira: Recentemente, a OXFAM lançou uma pesquisa que diz que os segmentos da população que foram empurrados para a extremam pobreza pelo ‘governo da morte’ vão precisar de cerca de 10 anos para se recuperar, e isso é estarrecedor. Quando você olha o outro lado da moeda vê que em nove meses, com uma pandemia em curso, os mais ricos aumentaram as suas riquezas, é ainda mais escandaloso. Então, eu acho que há perdas profundas de direitos, sucateamento das políticas públicas e aí as mulheres são diretamente afetadas, porque, quando falta política pública, o peso sobre os ombros das mulheres se multiplica. 

Manaus. Foto: Amazônia Real

Quando o sistema de saúde funciona precariamente, o peso sobre as mulheres para cuidar de doentes, para cuidar de pessoas com deficiência se multiplica. Quando falta trabalho, e nós estamos vivendo índices altíssimos de desemprego nacionalmente, o peso sobre mulheres se multiplica, não só pelo fato de muitas serem chefes de famílias, mas também porque ao fim e ao cabo, ainda naquelas famílias que tem o homem como provedor, o peso emocional e também prático de como gerenciar a subsistência de sua família com cada vez menos dinheiro é das mulheres.

Eu não sou otimista. Estamos vivendo uma situação no mundo e no Brasil, especialmente, que nesses meus 50 anos eu nunca presenciei e eu não consigo enxergar a curto prazo, mudanças. Claro que a gente continua fazendo a luta. Eu faço parte de organizações, por exemplo, que estão aí pedindo o impeachment do Bolsonaro, a Coalizão Negra Por Direitos é um daqueles mais de 60 pedidos que estão na Câmara Federal.

Então, eu avalio que nós vamos levar um tempo largo pra sair disso. O processo de vacinação no país, por exemplo, ainda está muito lento, a perspectiva de que nós vamos levar três anos para vacinar toda a população e como o governo federal transforma em chacota a morte de mais de 260 mil pessoas, não permite que a gente se anime. O “Fora Bolsonaro” hoje é uma pauta fundamental, mas que não é o suficiente para mudar as condições de vida das mulheres e da população negra.

Esse ano vai ser ainda mais difícil do que foi 2020 para população negra, para a população periférica e para mulheres negras e periféricas. É um ano que exige que a gente dispute ainda mais as políticas públicas, dispute o Estado, porque sem isso não tem como sobreviver.

FASE: Qual o seu desejo para as mulheres neste 8 de março?

Mônica Oliveira: Desejo muita força e serenidade. Precisamos de força para continuar na luta, mas desejo especialmente o sentimento de irmandade. Com a pandemia, comprovamos que conseguimos transformar a nossa solidariedade em ações concretas e entendemos que quem tem fome tem pressa e precisa imediatamente de auxílio.

Desejo que todas as mulheres se sintam acolhidas nessas lutas e sintam que fazem, sim, diferença na vida da sua comunidade e na do seu país. Somos nós que sustentamos as cidades, especialmente nós mulheres negras. Vamos cuidar, cuidar de nós mesmas, cuidar umas das outras, não cuidar apenas dos outros. Compartilhar afeto, generosidade e coragem para avançar na luta.

[1] Estagiário, sob a supervisão de Claudio Nogueira.

[2] Jornalista da FASE.

 

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