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14/10/2019Amazonia

Comunidades quilombolas e extrativistas realizam feira de alimentos agroecológicos, em Belém

Agricultores familiares de Cametá, Igarapé-Miri, Abaetetuba e Ananindeua levaram alimentos livres de agrotóxicos e transgênicos para a capital paraense


Catarina Corrêa Barbosa¹

Tapioca, açaí, maniçoba, jerimum, pato, tucupi, melancia, acerola. Esses são somente alguns dos itens que foram comercializados na feira realizada nesta sexta-feira, 11, na praça Eneida de Moraes, no bairro do Umarizal, em Belém. A produção é agroecológica. Além da alimentação saudável, as pessoas também levaram plantas medicinais como o anador; a nimesulida; o boldo; a hortelã e a babosa. Os preços variaram entre R$ 3 e R$ 80 (valor que estava sendo comercializado o pato para a ceia do Círio de Nossa Senhora de Nazaré).

Organizada pela Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura do Pará (FETAGRI) em parceria com o programa da FASE na Amazônia, a feira chegou a ser realizada, por dois anos, mensalmente. Contudo, devido à falta de incentivo das autoridades somada ao acidente com a ponte da Alça Viária, em abril deste ano, a feira deixou de ser realizada por cinco meses.

A agricultora familiar e diretora sindical da FETAGRI na região Tocantina, Benedita Gonçalves, explica que a retomada se faz com o mesmo propósito de antes: gerar renda para os agricultores, sobretudo para as mulheres, a fim de garantir a comercialização dos seus produtos. “Não adianta incentivar a produção se não tiver mercado. Falamos dos agricultores, mas o foco são as mulheres, porque normalmente são elas as responsáveis pelo sustento da família. Então, de início, incentivamos as feiras nos próprios municípios. Depois, em parceria com a FASE, decidimos trazê-las para a capital. Aqui, os produtos têm um valor agregado maior do que nas comunidades onde foram produzidos. Isso incentiva e estimula o agricultor”, afirma.

Benedita Gonçalves

Benedita lembra que para a maior parte das agricultoras, a produção é muito mais do que uma fonte de renda, é uma oportunidade de independência financeira. “No campo, as mulheres são maioria no sustento do lar, são elas que comandam a produção agrícola da roça, que trabalham, por exemplo, com os derivados da mandioca. Olhando de fora parece que o trabalho é pequeno, mas quando analisamos a caderneta agroecológica, por exemplo, identificamos que ao somarmos as rendas, elas são significativas na vida dessas mulheres”, analisa.

A dificuldade e a ausência das políticas públicas

Maria Calosita

A diretora sindical aponta que dentre as maiores dificuldades de realização do evento estão: a falta de incentivo do poder público e o alto custo com transporte. Para chegar à capital, algumas pessoas demoraram até 18h, isso porque é preciso pagar não só o ônibus ou barco, mas também o frete. Todos esses valores juntos não só encarecem, como também dificultam a realização do evento. “Nós não temos nenhum incentivo de políticas públicas. O governo não nos ajuda com nada. Se estamos hoje realizando a feira é porque as ONGs nos apoiam. Se não tivermos apoio, não conseguimos realizar o nosso trabalho. São as ONGs que nos ajudam com transporte e alimentação para que possamos vender a nossa produção. Nosso produto é agroecológico, mas não temos selo de garantia, porque isso exige muita burocracia, mas garantimos que é tudo produzido sem veneno”, resume.

Para poder vender o beiju, que demorou uma semana para fazer, , moradora da comunidade quilombola Santo Antônio, em Cametá, no nordeste do Estado, viajou 18h entre ônibus e balsas para poder expor seus produtos na feira. Além do beiju, ela levou farinha d’água, banana, macaxeira, tucupi. “Nós passamos muita dificuldade na estrada por causa do Círio de Nazaré. Chegamos em Belém às 3h da madrugada, sendo que saímos de lá 10h30”, afirma.

Além do beiju que demora uma semana para ficar pronto, a farinha vendida na comunidade também tem um bom tempo de produção: um dia inteiro para fazê-la. Para a agricultora, essa é a sua única fonte de renda. Quando não participa de feiras, ela vende o que planta e colhe em Igarapé-Miri e Carapajó. Somando tudo, ela consegue tirar até R$ 300 por mês.  Fora da feira, a média de renda das famílias é de menos de um salário mínimo.

Vivia da Conceição Cardoso

Vivia Conceição Cardoso, da comunidade quilombola do Abacatal, levou para a feira cheiro verde; as plantas medicinas, que usa na comunidade, como anador, boldo, nimesulida, gengibre; além de urucum, tucupi e jambu. “A feira é muito importante para nós que trabalhamos com agroecologia. Se nós tivéssemos mais espaços e o tempo fosse mais próximo era melhor para a gente divulgar os nossos produtos, porque nós que vivemos nas comunidades tradicionais e vivemos da agricultura familiar, da agroecologia, não trabalhamos com veneno e nem com adubação química, mas mesmo assim não temos apoio. O nosso produto sai mais quando as pessoas vão visitar a nossa comunidade e isso não acontece com frequência, mas quando tem esses eventos a gente pode encontrar pessoas de outros territórios e comunidades e isso é muito importante não só para vender, mas também para conversar sobre os nossos métodos de luta, porque nós estamos sendo esmagados e se nós não nos unirmos ficará ainda pior. Nessas feiras, a gente não só vende, mas também conversa, a gente faz a nossa frente de luta”, ressalta.

Cláudio Moraes, jovem da comunidade Quilombola Laranjituba que fica no quilômetro 78, da Alça Viária levou jerimum; feijão de corda; pimenta de cheiro; pimenta queimosa e jambu para a feira. Ele diz que o momento é bom para poder vender o que produz. “A gente não tem uma renda certa. Na comunidade varia muito. Quanto a gente acrescenta à produção do açaí é bom para todo mundo, porque a renda e maior. Mas sem o açaí, tiramos menos de um salário por mês”, conta.

Maria Auxiliadora, da comunidade Campo Alegre, localizada na divisa entre Igarapé-Miri e Abaetetuba vende bolo de macaxeira, ela explica que fazer o doce de forma natural tem todo um processo. “Primeiro tem que arrancar, lavar, descascar, cortar e triturar para podermos começar a produzir o bolo. Eu trabalho com isso há 20 anos. Então, a gente já tenta melhorar, tira uma quantidade e armazena no freezer. Depois, vamos retirando por dia. Mas eu gosto muito do que faço”, diz alegre.

A comunidade Campo Alegre existe há 33 anos. Na casa onde mora, Maria é agricultora e o marido que, além de agricultor, é professor da Zona Rural. O dinheiro do que produzem se soma à renda do esposo. “Se a gente vender todos os dias, tiramos um bom dinheiro. Consigo uma base de 60 bolinhos por dia ao valor de R$ 3 cada. Os maiores variam entre R$ 5 e R$ 12, e eu também trabalho com a macaxeira ralada por encomenda, vendo a pimentinha que plantamos, o feijão e outras coisas”, afirma.

Sobre a feira, Auxiliadora diz-se satisfeita, mas confessa que espera que ela volte a ser realizada mensalmente. Quanto ao esforço dos envolvidos na realização do evento, ela apenas agradece e diz que com esse incentivo aprende cada vez mais. “Nós já tivemos uns cursos. Estamos aprendendo a trabalhar melhor com essas variedades que a gente tem e isso é muito bom, porque plantar e colher é o que sabemos fazer de melhor”, finaliza. 

[1] Jornalista.

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