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23/08/2018Fundo Dema

Fundo Dema celebra 15 anos de luta na Amazônia

Celebração dos 15 anos do Fundo Dema inclui campanha para o plantio de árvores, realização de seminário, de um ato público e de Ferira de Saberes e Sabores


Élida Galvão¹

O Fundo Dema chega ao 15º ano de atividades voltadas ao fortalecimento de diversos povos e comunidades tracionais. Essa é uma história construída com muitas narrativas, muitas mãos, ações coletivas e, principalmente, muita luta, aprendizado e resistência. A celebração dos seus 15 anos não poderia ser diferente e envolverá muita gente.

Uma grande campanha de plantio de árvores frutíferas e de essências florestais tem sido realizada nos quatro territórios de atuação do Fundo Dema, com iniciativa realizada pelo Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR) de Altamira e apoio da Fundação Viver Produzir e Preservar (FVPP). O principal objetivo é dialogar com as famílias e instituições do Oeste do Pará sobre a implantação de sistemas agroflorestais para combater o desmatamento e as diversas ameaças ao bioma Amazônia.

A partir da consolidação de uma rede de amigas e amigos do Fundo Dema, formada por agricultores e agricultoras familiares, agroextrativistas, povos indígenas, quilombolas e técnicos e técnicas de instituições públicas, estão sendo coletadas centenas de sementes crioulas de diversas espécies frutíferas e florestais nativas, entre elas, o mogno amazônico. Em breve, estas sementes virarão mudas a serem plantadas em áreas degradadas e de proteção permanente. A intenção é devolver ao meio ambiente o que lhe vem sendo retirado há anos, que é a vida da floresta e na floresta, muito em razão aos crimes protagonizados por madeireiros, latifundiários, pecuaristas, mineradoras, que enxergam o bem comum como mercadoria.

Com esta grande mobilização, no período de 11 a 14 de setembro de 2018 será realizado, em Altamira (PA), o Seminário “15 nos do Fundo Dema: rede de experiências, processos e estratégias, de atuação do Fundo Dema na Amazônia pela Agroecologia, Segurança Alimentar e Nutricional e Justiça Ambiental”. Em meio à programação, no dia 12 de setembro, ocorrerá um ato público na orla de Altamira, a partir das 14h, juntamente à Feira de Saberes e Sabores, onde serão comercializados produtos nativos e agroecológicos de projetos apoiados pelo Fundo Dema.

Recuperando áreas degradadas

Inicialmente, o projeto do STTR de Altamira, apoiado pelo Fundo Dema em parceria com a Fundação Ford, previa a recuperação de áreas degradadas com a coleta de 10 mil sementes de mogno, entre outras espécies nativas, para alcançar a meta de 8 mil mudas plantadas. No entanto, de acordo com José Ripardo, coordenador do projeto e integrante do Comitê Gestor do Fundo Dema pela Fundação Viver Produzir e Preservar (FVPP), a meta foi atingida logo no início da campanha.“A ideia era chegar a um número aproximado às seis mil toras de mogno que foram apreendidas à época do crime ambiental que antecedeu a criação do Fundo Dema. Porém, é possível que consigamos ultrapassar esta quantidade”, diz Ripardo.

Movimento coletivo em defesa da Amazônia

Ultrapassar a meta de plantas germinadas só foi possível com a formação da rede de amigos e amigas. Com a visita a 15 cidades das regiões de atuação do Fundo Dema (Transamazônica, BR 163, Baixo Amazonas e Nordeste Paraense, com comunidades quilombolas), a Caravana da campanha vem dialogando com as pessoas sobre o objetivo do projeto, além de tratar sobre o processo de comercialização de produtos agroecológicos, sem a utilização de agrotóxicos.

A agricultora familiar Jocimar de Aquino fez a doação de 400 mudas de sementes de mogno brasileiro para o município de Rurópolis. “Nós temos cerca de 10 árvores adultas e contribuímos para esta campanha”, diz ela, que também é estudante do curso de agroecologia no Instituto Federal do Pará (IFPA) de Itaituba (PA). Sua ação estimulou outra colega de curso, Josifias dos Santos, que se cadastrou para recebimento de sementes. “Meu pai é agricultor na comunidade do Cocalino [em Itaituba]. Ele trabalha com plantas medicinais, e a terra é tão fértil que só faz cuidar da plantação sem desmatar. Queremos plantar o mogno para fazer um cinturão verde na limitação do terreno”, diz ela, que ajuda o pai com orientações agroecológicas.

Somos a Floresta – o que faz o Fundo Dema?

Com atuação no Oeste e Nordeste paraense, o Fundo Dema é um fundo de apoio a pequenos projetos coletivos de povos, comunidades tradicionais da Amazônia e agricultores e agricultoras familiares com os principais objetivos de garantir a segurança alimentar e nutricional, a justiça social, ambiental e climática, a preservação da biodiversidade, a defesa do território e dos modos de vida tradicionais.

Criado em 2003, o Fundo Dema surge da luta dos movimentos sociais. À época, foram apreendidas seis mil toras de mogno na região da Transamazônica/Xingu. A pressão destes movimentos possibilitou a doação da madeira, pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama), para que a população da região fosse indenizada pela ação criminosa. Pouco tempo depois, o Fundo expandiu-se para as demais regiões em que atua. Como forma de reverter a fatídica realidade, a missão do Fundo pauta-se no apoio a diversas comunidades, beneficiando centenas de famílias desamparadas e invisibilizadas pelo poder público.

O nome do Fundo é uma homenagem a Ademir Federicci, conhecido como Dema, uma liderança do campo, brutalmente assassinada em 2001, pela luta travada em defesa da Amazônia e de seus povos. Considerado um dos mártires da floresta, Dema mantém o seu legado vivo nas ações coletivas que defendem os bens comuns e garantem os direitos de camponeses e camponesas e de povos e comunidades tradicionais da Amazônia.

[1] Jornalista do Fundo Dema.

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