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29/05/2017Rio de Janeiro

Mães de vítimas do Estado se encontram em Manguinhos

“É sofrido um encontro desses, mas no final saímos fortalecidas”, disse Débora Silva, das Mães de Maio, durante encontro de mães de vítimas da violência policial em Manguinhos, no Rio de Janeiro


Carolina Moura¹

Mães de vítimas da violência policial. (Foto: Pedro Prado/Ponte Jornalismo)

Na sala simples de parede sem reboco, Fátima Pinho, que teve seu filho morto por policiais da UPP [Unidade de Polícia Pacificadora], tenta superar o lugar vazio que ficou no sofá. Ela mostra os retratos do filho e uma pintura que fizeram em sua homenagem enquanto ela termina de fazer o caldo de ervilha que ofereceu no II Encontro da Rede Nacional de Mães e Familiares Vítimas do Terrorismo do Estado, realizado sábado (20/5) no Campo Socity, espaço de futebol da comunidade em Manguinhos, zona norte do Rio.

O encontro, realizado nos dias 19 e 20 no Rio, busca responsabilizar o Estado pelas execuções praticadas por agentes do Estado. Durante o segundo dia do evento, houve roda de conversa, atividade para crianças, ato ecumênico e apresentação das mães. Márcia Jacinto, que teve seu filho, Henry Jacinto, morto por policiais militares com um tiro no peito quando voltava da casa do amigo dele, acredita que este encontro de mães serve para fortalecer e dar voz aos que foram brutalmente assassinados por agentes de segurança do Estado.

“Os policiais foram afastados só depois de dar muita raça e correr atrás da justiça. Se eu não fosse atrás, apurando, investigando, eles ainda estariam soltos”, disse ela, que estava estudando direito na época que seu filho morreu, em 2002. “Meu filho foi uma resposta de que quem manda na comunidade é a polícia”, completou. “Ele tem voz. E eu estou aqui para falar por ele. Os policiais foram afastados, graças a Deus, mas o processo demorou. E com ele teve dor. Estou aqui apoiando as mulheres, do lado dessas guerreiras. Aqui é nós por nós”, finalizou Márcia.

Fátima Pinho mostra retrato do filho. (Foto: Pedro Prado/Ponte Jornalismo)

Para Débora Maria Silva, uma das fundadoras do movimento Mães de Maio — criado no estado de São Paulo após as forças de segurança matarem mais de 500 pessoas em maio de 2006, entre elas seu filho —, o encontro foi fundamental para estruturar as mães que passam pela mesma coisa. “É muito bonito ver essas mães juntas. Juntas somos mais fortes. São as mães que vão derrubar o sistema. São as mães que vão fazer a democracia ser verdadeira. São as mães que vão fazer desse país um país verdadeiro”, declarou ela.

“Não podemos aceitar este Estado que mata nossos filhos e rouba nossos impostos. A gente não dá luz a um filho para eles matarem. Temos que lutar. A gente tem um Judiciário que mata dez vezes mais do que quem aperta o gatilho, porque só com uma canetada ele arquiva uma morte. É sofrido um encontro desses, mas no final saímos fortalecidas”, concluiu Débora. Procurada, a assessoria de imprensa da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro não se manifestou até o momento.

[1] Especial para a Ponte Jornalismo.

“Na Raça”

O boletim Na Raça² fala sobre o II Encontro da Rede Nacional de Mães e Familiares de Vítimas do Terrorismo do Estado. Maio, mês das mães, simboliza a luta de tantas mulheres no Brasil e mundo afora, em memória de seus filhos e na busca por justiça e responsabilização do Estado pela política de genocídio que vitimiza jovens negros, pobres e favelados. Diversas organizações de mães e dos movimentos sociais bradaram: “Os nossos mortos tem voz. Os nossos mortos tem mãe”.

[2] O programa da FASE no Rio de Janeiro esteve envolvido na realização do Encontro e também na produção do “Na Raça”.

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