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15/10/2021AmazoniaMulheresSegurança Alimentar

“Não se promove agroecologia sem enfrentar a violência contra a mulher”

Programa de formação “Mulheres e Agroecologia” reuniu agricultoras e extrativistas do Assentamento Agroextrativista PAE Lago Grande e Baixo Tocantins, no Pará, atendidas pelo projeto Amazônia Agroecológica


Alcindo Batista¹

Com o intuito incentivar uma série de discussões sobre a potência e as fragilidades da mulher do campo, o programa da FASE na Amazônia realizou o curso de formação “Mulheres e Agroecologia”. A ação é voltada para mulheres agricultoras e extrativistas beneficiárias do projeto Amazônia Agroecológica², que já promove oficinas para implantação de sistemas agroecológicos na região. A ideia é, para além da questão agrícola, dialogar sobre os direitos das mulheres, fazendo com que elas se reconheçam enquanto sujeitos coletivos de direitos, debatendo a violência de gênero. 

Atividade em forma de círculo, colando educadoras e participantes em pé de igualdade

A iniciativa acontece em quatro módulos no território do Assentamento Agroextrativista PAE Lago Grande e do Baixo Tocantins, no Pará, dando continuidade aos processos de luta que vem acontecendo na região. O primeiro deles foi realizado em setembro, tratando justamente sobre a violência de gênero. O próximo já está marcado para o período de 24 a 27 de outubro. As atividades são feitas de forma que não haja distinção entre as educadoras e as participantes, fazendo com que elas se sintam confortáveis para contar as suas histórias.

“Independente de qualquer coisa, a violência de gênero nos atravessa, então quando a gente se coloca em círculo, não existe uma hierarquia, muito pelo contrário”, conta Sara Pereira, educadora do programa da FASE na Amazônia. Para ela, “não se promove a agroecologia sem enfrentar a violência contra a mulher”. Sara completa dizendo que o evento é feito em um momento necessário, saindo de uma pandemia em que a situação das mulheres ficou ainda mais complicada. 

Falando em pandemia, Graça Costa, presidenta do comitê gestor do Fundo Dema, um dos parceiros dessa formação, ressalta a importância dos encontros poderem ser realizados de forma presencial, respeitando todos os protocolos de segurança. Terminado o primeiro período das aulas, as participantes têm como “dever de casa” o que Graça chama de “intermódulo”, onde elas levam para as suas comunidades o que foi debatido e refletem sobre outros assuntos que podem ser abordados no futuro. “Assim que iniciarmos o segundo módulo, começamos pela escuta de sugestões e de pensarmos como podemos potencializar essas temáticas”, conclui. 

Empoderamento individual, familiar e comunitário

Também são parceiros desta iniciativa a Federação das Associações de Moradores e Comunidades do Assentamento Agroextrativista da Gleba Lago Grande (FEAGLE) e o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR) de Santarém. Já no Baixo Tocantins, os principais parceiros são a Associação de Mulheres Quilombolas Agroextrativistas da Comunidade Ramal do Bacuri, Associação dos Agroextrativistas, Pescadores(as), Artesãos(ãs) do Pirocaba (ASAPAP) e Associação Quilombola do Baixo Caeté África e Laranjituba.

Jaqueline dos Santos, educadora da FASE Amazônia, destaca a utilização de materiais didáticos desenvolvidos pela FASE como a cartilha “Círculos Feministas”, com informações sobre a violência doméstica, que cresceu no pior momento da pandemia, e também de radionovelas. 

A agricultora Edilena Teixeira, diretora da FEAGLE, conta que essa didática foi importante para a conscientização sobre os diversos tipos de violência sofridos pelas mulheres. “Muitas delas, nós vivíamos no dia a dia, mas não sabíamos identificar”, conta. A agricultora completa falando sobre o potencial de geração de renda no próprio quintal dessas mulheres, onde, muitas vezes, elas são as responsáveis pela produção de mel, tiram os ovos das galinhas, plantam e também colhem ervas medicinais.

Participantes reproduzindo o que seria a rotina dos homens. Foto: FASE Amazônia

Maria Odenilze Miranda, da comunidade de Piauí, no Arapixuna, aproveitou o evento para refletir sobre a divisão sexual do trabalho no dia a dia. “Nós fizemos também um relógio com o tempo do homem e o tempo da mulher e vimos como a mulher não descansa. Nós chegamos das atividades e já vamos fazer as coisas de casa, cuidar do filho e quando vamos dormir, já está quase na hora de começar tudo de novo”. 

[1] Estagiário, sob supervisão de Cláudio Nogueira. 

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