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12/03/2018Segurança Alimentar

O que querem as mulheres feministas no movimento agroecológico?

Durante o Encontro Regional de Agroecologia (ERÊ) – Nordeste, temas como economia feminista e combate à violência contra mulheres apareceram ao lado da importância de se produzir e comercializar alimentos saudáveis


Evento debateu pautas urgentes das mulheres na agroecologia. (Foto: Marco Zero)

Mais do que o consumo de alimentos saudáveis, produzidos sem agrotóxicos, a agroecologia pode reinventar as relações entre mulheres e homens. É o que defendem as mulheres feministas que compõem movimentos de defesa da agroecologia¹, integram associações de agricultura familiar, organizações da sociedade civil, pesquisadoras e estudantes nas universidades. Durante o Encontro Regional de Agroecologia (ERÊ) – Nordeste, a construção de um “rio da vida das mulheres” ajudou a resgatar os feitos e as mulheres que participam do movimento agroecológico no nordeste brasileiro. No debate sobre feminismo, os temas da economia feminista e do combate à violência apareceram ao lado da importância de se produzir e comercializar alimentos saudáveis, de comunicar à sociedade e valorizar as mulheres nesse contexto.

O encontro aconteceu no Recife, nos dias 27 e 28 de fevereiro, na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), como etapa preparatória para o IV Encontro Nacional de Agroecologia (ENA)², para o qual as mulheres desejam ir em peso e fazer valer as urgências que têm enfrentado. Graciete Santos, coordenadora da organização feminista Casa da Mulher do Nordeste, explica que apesar dos avanços conquistados, as mulheres ainda se veem em situações de invisibilidade. “A gente dá mais uns passinhos atrás e dizemos que precisamos fortalecer a importância do papel das mulheres na construção da agroecologia”.

Para ela, há dois desafios a serem enfrentados. O primeiro é dialogar com a sociedade sobre o que é agroecologia – “uma abordagem de mundo, um projeto de sociedade, mas que vai na contramão de outro modelo de economia, que quer discutir o que consumir, como se alimentar”, explica. O segundo desafio é valorizar a contribuição de mulheres dentro do movimento e também na ciência. “Não é só pensar na visibilidade quantitativa, mas pensar a contribuição do aprendizado que as mulheres trazem. A agroecologia tem que garantir igualdade entre homens e mulheres, tem que reconhecer as mulheres”, defende Graciete.

Joelma, de Passarinho, desenvolve a agroecologia no Recife. (Foto: Marco Zero)

Joelma Faustino, da comunidade de Passarinho, na periferia do Recife, conheceu a agroecologia no último ano. Por meio de uma iniciativa de agricultura urbana e fortalecimento das mulheres, ela tem aprendido sobre os usos de plantas medicinais, frutíferas e como cultivar na cidade. Joelma faz parte da organização Espaço Mulher e  tem relação com a iniciativa da Casa da Mulher do Nordeste e tem retomado práticas de cultivar plantas medicinais, frutíferas e outras nos quintais e jardins na comunidade em que vive. Para Joelma, o rio poluído é um dos principais problemas que o trabalho com a agroecologia pode ajudar a enfrentar. “A gente está agora trabalhando com outras mulheres para plantar. Tem muitas que não conhecem as frutas, os legumes, as que não se identificam e outras que só são donas de casa”, conta. Ainda assim, aos poucos ela tem repassado o que aprende e despertado o interesse de outras mulheres em conhecer o tema.

Para Joelma, no diálogo com outras mulheres, a autonomia e a saúde são centrais. “Minha luta é pelo Espaço Mulher e pelo rio”, resume. Para cativar, explica como uma alimentação diversificada é boa para as crianças, como preservar espaços de mata que podem ajudar a recuperar o solo e as águas do rio com que convivem. Outro lado do desafio é entender que a agroecologia não se resume à agricultura, nem está apenas vinculada ao campo. No meio urbano, a falta de espaço, a necessidade de sair de casa para garantir o sustento e outras dinâmicas próprias da cidade são desafios para produzir alimentos, principalmente em uma comunidade periférica tipicamente urbana. “Nós vemos como é difícil para as mulheres porque elas estão na sobrevivência. A gente está entrando por uma porta que é a da saúde. Do Bem Viver, do bem estar, de olhar para a comunidade. A história da coleta do lixo, da segurança alimentar, para que tudo isso venha a fazer sentido na vida delas”, explica Graciete.

Graciete, da Casa da Mulher do Nordeste. (Foto: Marco Zero)

É por meio do resgate de práticas, ouvindo mulheres mais velhas, que o trabalho tem se desenvolvido. “Se você olha para a história, as mulheres sempre estiveram na agroecologia, nos seus quintais, nas farmácias vivas, nos aprendizados com as avós, perto do entorno da casa onde é um espaço de experimentação. As pessoas na cidade não têm relação direta com a terra, muitas vezes já perderam a prática do plantar para comer. Isso tudo dificulta essa relação”, conta Graciete. Ainda assim, o trabalho desenvolvido há cerca de um ano já mostra resultados positivos. “Aos poucos mais mulheres estão chegando. Hoje já têm hortas, sabem para que servem as plantas, chás e vão passando uma para a outra”, conta Joelma.

ERÊ Nordeste em vídeo

Além de debater a relação entre as mulheres e a agroecologia, o ERÊ Nordeste deu visibilidade às diversas lutas e experiências agroecológicas dos territórios do nordeste brasileiro, além de fortalecer o desafio de estreitar os diálogos entre campo e cidade. As trocas de saberes e reflexões sobre as temáticas que envolvem o IV ENA foram registradas em vídeo³.

[1] Matéria originalmente publicada pelo Marco Zero.

[2] Educadores dos programas regionais da FASE em Pernambuco e na Bahia participaram Encontro Regional de Agroecologia (ERÊ) – Nordeste. A FASE está também na construção de outros eventos regionais e estaduais, assim como na do próprio IV Encontro Nacional de Agroecologia (ENA), a ser realizado pela Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) em Belo Horizonte (MG).

[3] Vídeo feito por integrantes do Coletivo de Comunicadoras e Comunicadores da ANA presentes no ERÊ Nordeste. 

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