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28/08/2019Amazonia

Quem vive na Amazônia avisa: “nem tão cedo o fogo vai parar”

Para Guilherme Carvalho, coordenador do programa da FASE na Amazônia, “quando Bolsonaro diz que não irá demarcar e vai abrir as terras já demarcadas para a mineração, está inviabilizando a existência dessas reservas”


 Inácio França¹

“O fogo não vai parar. Nem tão cedo as queimadas e os incêndios vão acabar”. A afirmação categórica partiu da botânica, agrônoma e ecóloga Ima Célia Guimarães Vieira, uma das vozes mais respeitadas da ciência na Amazônia.

Não se trata de um exercício de futurologia. Pesquisadora e ex-diretora do Museu Paraense Emílio Goeldi, ela justifica a afirmação com argumentos baseados em sua experiência de trabalho na floresta. E ela se refere aos incêndios florestais que estão ocorrendo e, numa perspectiva de longo prazo, às queimadas como uma prática comum na agricultura e pecuária da região.

Imagem da NASA em 22 de agosto de 2019

“A estação seca está só começando. O auge do período de estiagem na Amazônia é no final de setembro, início de outubro. As queimadas aconteceram mais cedo este ano porque foram incêndios florestais criminosos”, explica Ima Vieira. Na verdade, em junho o recém lançado sistema Mapbiomas já havia alertado que 95% dos desmatamentos eram ilegais.

Além do fator climático, o componente político reforça a argumentação da cientista, pois não se sabe como vão reagir os madeireiros, garimpeiros e pecuaristas, apoiadores de Bolsonaro, ao recuo do governo diante da pressão internacional. Assim como a pesquisadora, outros especialistas na região estão se questionando se os incendiários irão optar por um recuo tático ou, sentindo-se traídos, continuar a se aproveitar do desmantelamento da estrutura de fiscalização do Ibama.

“Quando essa crise passar, as queimadas voltarão a acontecer porque é a tecnologia de preparo do solo desse modelo de exploração que se impôs na região”, explica Ima, ressaltando que nem todas as queimadas são criminosas, como se verá mais adiante.

As palavras do presidente Jair Bolsonaro na terça-feira, que, durante a reunião com os governadores da Amazônia Legal Brasileira, avisou que não irá demarcar mais nenhuma terra indígena, também sinalizam que o desmatamento continuará a ser incentivado, por mais que a retórica para o público internacional diga o contrário.

O coordenador do programa da FASE na Amazônia, Guilherme Carvalho, interpreta o significado da fala do presidente: “As áreas mais preservadas são as terras indígenas, os territórios quilombolas, as reservas biológicas, as unidades de conservação. Quando Bolsonaro diz que não irá demarcar e vai abrir as já demarcadas para a mineração, está inviabilizando a existência dessas reservas”.

Uma das mais antigas ONGs brasileiras, a FASE atua na Amazônia na área de Justiça Ambiental e apoia povos tradicionais que sofrem o impacto do modelo de desenvolvimento implantado na região. Junto a outras 117 entidades que atuam na região, a FASE assinou e publicou um manifesto contra as acusações de Bolsonaro responsabilizando as ONGs pelas queimadas.

Irresponsáveis e dispostos a tudo

Especialista em outra área do conhecimento, o economista e professor de gestão ambiental do Núcleo de Estudos do Meio Ambiente da Universidade Federal do Pará (NUMA/UFPA) André Cutrim Carvalho ratifica a previsão. “A questão do desmatamento e das queimadas é complexa. A elite fundiária de nossa região é vinculada ao banditismo, tem como objetivo a acumulação imediata de capital. E, agora, os mecanismos de controle e de proteção do Estado estão nas mãos dessa elite”, explica.

Com a experiência de quem estuda desmatamento desde a graduação e teve a tese de pós-doutoramento sobre a “Expansão da Fronteira Agropecuária e a Dinâmica do Desmatamento Florestal na Amazônia Paraense” premiada pelo Conselho Federal de Economia e pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Cutrim ilustra o caráter violento e irresponsável daquilo que ele chama de elite fundiária, Cutrim recorda um episódio ocorrido há 15 anos:

“Quando o governo Lula anunciou o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAM), em 2004, as queimadas criminosas se intensificaram. Foi o ano com o maior número de incêndios florestais e queimadas não autorizadas. Sabe por que isso aconteceu? Porque, quando os agricultores, garimpeiros e madeireiros perceberam que a coisa iria apertar, incendiaram a floresta”.

Em 2019, o ‘Dia do Fogo’ aconteceu pelo motivo oposto. “Se o cerco se fecha, eles queimam para aproveitar enquanto podem. Imagine agora, quando se sentem à vontade?”

Queimadas autorizadas x incêndios criminosos

De acordo com a pesquisadora Ima Vieira, doutora em ecologia pela Univeridade de Stirling, na Escócia, há diferenças entre as queimadas criminosas e as autorizadas.

A queimada autorizada requer técnicas para evitar que o fogo atinja a floresta e provoque incêndios descontrolados. São as técnicas de manejo integrado do fogo. O aceiro é a mais conhecida: é o desbaste de um terreno em volta do local que será queimado para impedir propagação de incêndios. Mesmo assim, se dá sob autorização das autoridades ambientais.

A queimada não autorizada acontece sem o controle das autoridades, porém ainda não é o pior dos casos. Os incêndios florestais criminosos, como os que estão acontecendo na Amazônia são os mais graves: são usados para desmatar rapidamente e invadir terras públicas, unidades de conservação e reservas indígenas. Muitas vezes, parte da mata é derrubada meses antes. Os criminosos esperam que as árvores caídas sequem durante a estiagem para, só então, atear fogo.

[1] Jornalista do Marco Zero, jornal de Recife parceiro do programa da FASE em Pernambuco em espaços de articulação como o Recife de Lutas.

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