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20/04/2018Fundo Dema

Quilombolas trocam experiência sobre agroecologia no Pará

O grupo de quilombolas visitou três comunidades durante a viagem, entre as quais: Carrazedo, Jocojó e Gurupá Miri, todas apoiadas pelo Fundo Dema. Essas comunidades estão localizadas em um território de ricos recursos naturais e intervenção do agronegócio


Élida Galvão¹

O município de Gurupá, na região do Marajó, foi o destino de um grupo formado por seis quilombolas do estado do Pará. A atividade proporcionou troca de experiências e de conhecimento entre comunidades tradicionais, com o objetivo de compartilhar sobre formas organizativas e fortalecer estratégias de resistência. O grupo visitou três comunidades quilombolas durante a viagem, entre as quais: Carrazedo, Jocojó e Gurupá Miri. Apoiadas pelo Fundo Dema, por meio de iniciativas envolvendo a produção agroecológica de farinha, essas comunidades estão localizadas em um território de ricos recursos naturais, com denso ambiente florestal e aquífero, mas também de intensa incisão do agronegócio.

O Marajó foi o destino do intercâmbio entre quilombolas do Pará. (Foto: Fundo Dema)

A atividade foi muito mais do que uma simples vivência, ela provocou reflexão sobre as alternativas de resistência. Apesar de muitas diferenças entre as famílias, como o modo de produzir e a forma como é transportada a colheita, por exemplo, as histórias de luta convergiram para uma identidade coletiva.

Agroecologia na produção de farinha

(Foto: Fundo Dema)

Desenvolvidos pela Associação dos Remanescentes de Quilombo do Jocojó (ARQJO) e pela Associação das Comunidades Remanescentes de Quilombo do Município de Gurupá (ARQMG), os dois projetos de mesmo nome ‘Casa e Forno de Farinha Ecológico e Eficiente’, apoiados pelo Fundo Dema, centraram seus esforços na construção de fornos ecológicos em 11 comunidades, envolvendo Carrazedo, Gurupá Miri e Jocojó, atendendo diretamente mais de 150 famílias.

Responsável pela subsistência de mais de 500 famílias na região, a produção de farinha é considerada uma arte centenária que vem atravessando gerações. Plantar, cultivar, colher, descascar, ralar, prensar, esfarelar e torrar a mandioca faz parte do processo produtivo. Além disso, a atividade retrata a cultura local e dá vivacidade à história étnica de homens, mulheres, idosos, jovens e crianças que tradicionalmente pertencem àqueles territórios.

De forma a qualificar a produção da farinha, as associações quilombolas atuaram na construção dos chamados fornos ecológicos. Esta alternativa passou a reduzir em 50% a necessidade de queima da lenha. Isso porque, por serem totalmente fechados, os fornos conseguem chegar a maiores temperaturas em menor tempo. Além disso, a conversão da fumaça por uma chaminé evita casos de doenças provocadas pelo vapor.

(Foto: Fundo Dema)

“Lá na comunidade de Jocojó, visitamos duas casas de farinhas e lá vimos que as famílias estão realmente satisfeitas. Estão usando a casa de farinha da forma que foi colocada, eles disseram que foi uma coisa ótima pra comunidade porque diminuiu o gasto com energia elétrica, e diminuiu a fumaça que prejudicava a vista. A produção de farinha aumentou. Antes eles ficavam o dia todo pra produzir um pouco de farinha, agora com a casa de forno eles produzem mais”, observou Francisca Gama, da comunidade Açaiteua, no município de Irituia.

Trocas de experiências

As formas tradicionais de trabalho chamaram bastante atenção do grupo visitante. Descrevendo a imagem do carregamento do material e a distância entre a casa de farinha e o centro da comunidade, Odilon Trindade fala com orgulho sobre o progresso tecnológico com o qual possibilita as famílias de sua comunidade transportarem a farinha produzida sem tanto desgaste físico. “É muito longe para eles trabalharem, não tem um meio de transporte, eles carregam na costa, e andam até 1h30 com o paneiro² nas costas para carregar o produto deles. Na minha comunidade, até pra fazer a roça a gente tem um transporte pra chegar lá, na costa do burro, na carroça do boi. Para trazer o produto lá do roçado, a gente traz tudo na costa do animal, na carroça. E pra trazer a mandioca pra casa de farinha, a gente traz em trator. Não carrego paneiro na minha costa, sou quilombola, não sou mais escravo”, disse Odilon, que mora na comunidade Santa Luzia do Bom Pastor, no município de Moju.

Fornos ecológicos são alternativa para a diminuição do uso de lenha e de doenças provocadas pela fumaça. (Foto: Fundo Dema)

As trocas de informação sobre a difusão de novas tecnologias foram bastante discutidas entre eles, porém, com o cuidado de não provocar mudanças bruscas nas relações sociais e culturais das comunidades, como a introdução do forno elétrico na produção de farinha, por exemplo. Segundo Odilon, depois que passaram a usar forno elétrico, as famílias começaram a produzir maior quantidade de farinha em pouco tempo. “A gente perguntou para eles quantos sacos de farinha eles produziam, eles falaram que produziam cinco sacos, 15 na semana, e eu falei que 15 sacos de farinha a gente faz em três horas na minha comunidade, 15 pacotes de farinha dá­ sete sacas e meia. São três fornadas de farinha, em menos de meia diária pra fazer isso”.

Madeireiras ameaçam o território

Reconhecidos pelo Instituto de Terras do Pará (ITERPA) e pela Fundação Palmares, os territórios quilombolas representados pela ARQMIG e ARQJO acabam se tornando bastante atraentes para empresas madeireiras. De olho nas extensas áreas florestais, frente à regularização fundiária, uma grande empresa exportadora de madeira passou a incidir na política fundiária das comunidades por meio de contratos firmados de exploração e execução de manejo florestal sustentável, que determina prazos e regras a serem cumpridas por ambas partes. As regras preveem a aceitação da exploração de uma certa quantidade de madeira no território, em troca de compensações (sejam financeiras, de serviços) para a comunidade, os chamados Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA).

Esta prática interfere na autonomia e nos modos de vida das comunidades que durante o período de contrato ficam desautorizadas a fazer qualquer derrubada. Esta prática passa a ser exclusiva da empresa. “Enquanto não acabar esse período, o contrato não pode ser desfeito. Se desfizer, a associação paga uma multa alta”, diz Aurélio Borges, da coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Pará (MALUNGU).

Para Aurélio, este tipo de acordo provoca grande acomodação dos quilombolas sobre a ofensiva do agronegócio, além de ser uma ameaça aos seus direitos sobre o território. “Percebi que as famílias recebem um valor mensal pelo projeto e que, talvez por causa disso, algumas não estejam muito preocupadas com a produção [familiar]. É uma preocupação, porque a gente sabe que esse projeto vai acabar. E quando acabar? Do que essas famílias vão viver?”, complementa Iraci dos Santos, da comunidade Santa Rita das Barreiras, no município de São Miguel.  

Projeto Intercâmbio

O Projeto ‘Intercâmbio de experiências de gestão socioterritorial e de fundos de pequenos projetos na Pan Amazônia: o Fundo Dema na promoção de práticas sustentáveis’, é resultado da parceria entre o programa da FASE na Amazônia/Fundo Dema e a Fundação Ford, com o objetivo de ampliar conhecimentos e efetuar trocas de experiências acerca da produção de alimentos saudáveis, gestão territorial, recuperação de áreas degradadas e sistema agroflorestal, por meio de intercâmbio nacionais e internacionais realizados entre grupos, envolvendo integrantes do Comitê Gestor do Fundo Dema, integrantes de projetos por este apoiados e lideranças comunitárias, para fortalecer as resistências frente ao modelo desenvolvimento pautado na degradação socioambiental e desterritorialização.

[1] Jornalista do Fundo Dema.

[2] Cesto de vime usado para guardar e transportar.

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