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25/07/2017Amazonia

Trabalhadoras rurais criam associação agroecológica em Belterra (PA)

O jornal Brasil de Fato conta, em três reportagens, a história de Amabela, uma associação de 75 trabalhadoras rurais que alia demandas produtivas às pautas feministas, tendo como princípio a agroecologia


Bob Barbosa¹

“É a minha segunda família. Eu me emociono muito quando me lembro que vim para o sindicato. Nunca imaginei que iria trabalhar com esse grupo de mulheres, eu nunca tinha saído da minha casa para associação nenhuma. E quando, no sindicato, eu descubro a maravilha de trabalhar com as mulheres da minha categoria, as trabalhadoras rurais, foi a coisa mais linda que aconteceu na minha vida”. A declaração é da agricultora Selma Ferreira. Ela faz parte da a Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Município de Belterra (Amabela), no interior do Pará. 

Ouça a reportagem:

Sandra Pereira e Selma, duas das associadas da Amabela. (Foto: Bob Barbosa / BrF)

O jornal Brasil de Fato conta, em três reportagens, a história de Amabela, uma associação de 75 trabalhadoras rurais que alia demandas produtivas às pautas feministas, tendo como princípio a agroecologia. O tema da primeira reportagem de Bob Barbosa, enviado especial a Belterra, é o contexto em que surgiu a Amabela. 

Belterra de muitos contrastes

Quem chega a Belterra, município de 17 mil habitantes no oeste do Pará, logo percebe que se trata de um lugar com muitos contrastes. Metade do seu território faz parte da Floresta Nacional (Flona) do Tapajós, uma Unidade de Conservação (UC) com 25 comunidades tradicionais, onde vivem 5 mil pessoas, entre indígenas e ribeirinhos.

Na outra metade do município, o que domina a paisagem são as lavouras de soja. O ar que se respira ali vem sendo constantemente afetado pelas pulverizações aéreas de agrotóxicos. No meio desse cenário, está o pequeno e bucólico centro de Belterra.

Uma inusitada sequência de casas tipicamente norte-americanas, sem muros ou cercas, compõem a principal rua da cidade. As casas, assim como hidrantes e caixas d’água de metal espalhadas pela cidade, foram construídas pelo empreendimento estadunidense que se instalou na região para explorar látex, na década de 1930.

O desejo de Henry Ford em transformar Belterra numa próspera exportadora de borracha, porém, não vingou. Menos de dez anos depois, a empreitada na Amazônia virava ruína. Sequer deu tempo de Ford conhecer a sua “bela terra”.

A maioria dos trabalhadores e trabalhadoras rurais da agricultura familiar de Belterra descende de imigrantes nordestinos que vieram para trabalhar como mão de obra no sonho norte-americano da borracha.

Somente décadas depois, na virada dos anos 2000, apareceram em Belterra os produtores de soja, vindos do Sul. Diferentemente da borracha, a soja é atualmente um rentável produto de exportação, garantindo lucro aos proprietários dessas lavouras.

Rua residencial de Belterra.
(Foto: Bob Barbosa/BrF)

Nesse processo, grande parte dos agricultores familiares foram vendendo seus lotes e passaram a morar em terrenos menores, próximos ou até dentro da área urbana de Belterra. No entanto, eles mantiveram o hábito de cultivar roçados e de criar pequenos animais. Outros seguiram nas suas terras, cercados pelas propriedades de soja. Seus roçados, contudo, ficaram vulneráveis aos efeitos dos agrotóxicos, que são sistematicamente aplicados na vizinhança.

Dentro desse contexto, de contrastes sociais, econômicos e ambientais, é que surge, em 2015, uma organização composta exclusivamente por mulheres da agricultura familiar: a Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Município de Belterra, ou simplesmente Amabela.

Nascida no sindicato

Como lembra a agricultora Selma, a história do surgimento da Amabela passa pelo Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Belterra (STTRB). Na ocasião, em 2013, ela era secretária de finanças do sindicato (e ainda é) e recebeu como missão encaminhar a participação das mulheres em um edital aberto pelo programa da FASE na Amazônia, via Fundo Dema – criado em 2003 para apoiar iniciativas coletivas de valorização socioambiental organizadas por indígenas, quilombolas, comunidades extrativistas, ribeirinhas e da agricultura familiar.

O edital apoiava pequenos projetos elaborados necessariamente por mulheres no Baixo Amazonas, região que compreende vários municípios do oeste e noroeste do Pará. Por meio de um processo construído coletivamente entre a FASE e as mulheres, não só com as de Belterra, mas também de outros municípios, como Santarém, Oriximiná e Terra Santa, surgiu o Fundo Autônomo de Mulheres Rurais da Amazônia Luzia Dorothy do Espírito Santo.

Para acessar o Fundo, nesse primeiro edital, muitas das propostas inscritas tinham como objetivo criar associações de mulheres. Sara Pereira, educadora popular da FASE na Amazônia, explica que as mulheres “queriam ter uma organização que tivesse estatuto, que tivesse uma questão contábil estruturada, para poder depois acessar outros recursos, em outros editais, em outros projetos”.

Em Belterra, Selma visitou as mulheres agricultoras, nas comunidades locais, preparando com elas a organização da futura associação. Para cumprir as exigências do edital, a Casa Familiar Rural de Belterra ofereceu seu Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) e, assim, elas conseguiram acessar o Fundo. Em 2015, na sede do sindicato, foi oficializada a criação da associação e eleita a primeira diretoria da Amabela. 

Entre as fundadoras, estava Maria Irlanda de Almeida, que tem uma história de lutas dentro do sindicato e que, na Amabela, é uma das agricultoras mais atuantes hoje. “A associação está com dois anos e nós já temos o nosso próprio CNPJ. Temos projetos que já acessamos, como o projeto dos pintos e a criação de galinha caipira integrada à horticultura. Começamos a receber os nossos pintinhos. Nesse projeto, são 21 mulheres, e cada uma recebe 50 pintinhos para que possamos dar o ponta pé inicial na criação dessas galinhas caipiras”, conta.

[1] Comunicador do jornal Brasil de Fato, onde a reportagem foi publicada originalmente.

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