Rosilene Miliotti

Ação na festa das Neves. Foto: Rosilene Miliotti

A Campanha Nem um Poço a Mais, da qual a FASE é parte, alerta a população e romeiros em Presidente Kennedy, no Espírito Santo, sobre os perigos da construção do Porto Central. A ação informativa aconteceu neste fim de semana  durante a Festa de Nossa Senhora das Neves.

O empreendimento petroleiro vai interferir na vida da população da região e deixar cerca de 400 famílias de pescadores artesanais sem trabalho. O Santuário das Neves, templo católico, terá sua área reduzida, ficando em meio a grandes tanques de petróleo. Na atividade, a Campanha reúne 60 pessoas parceiras que já são impactadas por empresas como o Porto Central, ativistas e pesquisadores de diferentes regiões do país e da Argentina.

“Esse porto ameaça ilhar um patrimônio histórico, o Santuário das Neves, que anualmente reúne mais de 10 mil fiéis todo dia 5 de agosto. Como ficará a Romaria das Neves depois que a via de acesso ao santuário for destruída? Há um ataque à integralidade ecológica do planeta. O Papa Francisco diz que a ecologia integral é composta por vários elementos, inclusive a fé e a religião de um povo. O impacto é real na fé das pessoas, que é um patrimônio inquestionável, é tão importante quanto a preservação ao meio ambiente”, explica Ângelo José Ignácio, da Articulação das Pastorais da Ecologia Integral do Brasil.

Para Marcelo Calazans, coordenador da FASE no Espírito Santo, a população ainda não foi devidamente informada acerca da construção do Porto, muito menos sobre o impacto na vida de quem vive na região. “Ficou nítida a falta de informação da população. E, apesar de termos apoio da Igreja, o lobby feito por deputados e prefeitura local é grande e acaba por silenciar esse apoio. Mesmo assim, conseguimos trazer cartazes e mobilizar sobre o tema”.

Distribuição de material e conversa com população. Foto: Rosilene Miliotti

Daniela Meirelles, educadora da FASE, lembra que a história se repete e, em todo lugar onde chegam os portos, a população não se beneficia e fica apenas com a degradação da vida. “Pessoas de outros lugares vão trabalhar na construção desses portos e com eles chegam a prostituição, a gravidez indesejada, violência e drogas. As promessas de empregos são mentirosas porque essas vagas não atendem à população que, em geral, não têm qualificação. Quando elas são contratadas, assumem postos de limpeza e serviços gerais. Mesmo assim, são raras essas vagas”.

“Compensação não é emprego”, afirma Rosinéa Pereira Vieira, pescadora artesanal e presidente da Associação de Pescadores de Porto Santana e Adjacências, em Cariacica. “Muitas pessoas acabam se rendendo ao que essas empresas oferecem. Elas nos procuram para fazer ações de reparação e nos prometem o mundo. Infelizmente, pescadores, quilombolas, as comunidades acabam se iludindo e se rendem a essas falsas ações, que tiram a identidade local”, lamenta. “É preciso avaliar e pensar se essas compensações serão para sempre. E depois? O dinheiro que eles nos oferecem acaba, assim como equipamentos e projetos acabam, e o pescador não consegue voltar a exercer sua atividade como sempre fez, levando o sustento para sua família”.

Visita à área de restinga em local onde será construído o Porto Central. Foto: Rosilene Miliotti

A Campanha alerta que é possível viver sem o porto. A construção do Porto Central vai destruir 1.100 hectares de terra protegida (Mata Atlântica e restinga). Para ser instalada, a empresa conseguiu isenção de impostos federal, estadual e municipal, portanto sem recursos para o o poder público.  “Vamos salvar a fé, o pescador e a pesca artesanal, a mata atlântica, a água e as mulheres. Nem um porto a mais!”.

Saiba mais e acesse o material da alerta produzido pela Campanha Nem um Poços a Mais.