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08/10/2019Pernambuco

Campanha “Mulheres Negras pela Vida” fala da luta das mulheres em Pernambuco

Intervenções no metrô e seminários trazem os temas da violência de gênero e raça


Piê Garcia¹

No dia 3 de outubro foi lançada a campanha “Mulheres Negras pela Vida”, uma iniciativa da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e o programa da FASE no estado,  que envolve ações em quatro regiões: Recife e Região Metropolitana, Zona da Mata, Agreste e Sertão. O objetivo é dialogar com a sociedade sobre as violências que atingem cotidianamente as mulheres negras, geradas pelo racismo, machismo e a discriminação de classe. 

Foto: Yane Mendes

No primeiro momento, a Campanha apresenta  dados sobre a violência de gênero e raça, fazendo uso de manequins que simbolizam os corpos das mulheres negras violados cotidianamente. A exposição pode ser visitada na Estação Recife (metrô), mas também se estenderá para o Terminal Integrado de Xambá, em Olinda, e  para os municípios de Vitória de Santo Antão, Garanhuns e Petrolina. A campanha seguirá com uma agenda de debates sobre a violência contra a mulher negra, procurando demonstrar as ações de resistência contra as violações sofridas diariamente pelas mulheres. 

Luiza de Marilac, coordenadora do programa da FASE em Pernambuco, considera a atividade importante porque “o racismo é uma realidade que precisa ser enfrentada por todas as pessoas, pelas organizações e pela sociedade”. Um outro ponto importante é que a campanha dá continuidade a um compromisso da FASE, que tem como referência os princípios feministas, anti-racistas e que defendem a igualdade entre os diferentes sujeitos na sociedade. “Essa é uma ação mais concreta da FASE na luta anti-racista e de fortalecimento das organizações das mulheres negras”. 

Intervenção no Metrô do Recife.

Luiza afirma ainda que “Recife é a capital mais desigual do Brasil e a partir daqui a gente entende como as mulheres negras são afetadas de diferentes maneiras: violência policial; violência doméstica; racismo institucional, que se manifesta na saúde; na política de encarceramento dos filhos, dos companheiros e das próprias mulheres negras. Elas também são afetadas por uma  violência que é de uma questão muito sensível à FASE, que é a falta de moradia, a precarização das suas condições de vida e do acesso aos bens comuns como a terra urbana e a água. É uma violência institucional permanente na vida”.

Rosimere Nery, educadora do programa da FASE em Pernambuco, reforça que “a solidariedade é uma estratégia de resistência que as mulheres negras têm utilizado no seu cotidiano invisível, mas importante para que elas continuem vivas”. 

Mulheres: sinônimo de resistência

As mulheres negras são maioria nos piores indicadores sociais e econômicos do Brasil. São elas que enfrentam cotidianamente as mais perversas manifestações de violência na sociedade brasileira. Violências de toda ordem, em todas as dimensões da vida: na casa, na rua, na escola, no lazer, no trabalho, no sistema de saúde, nas diversas instituições do Estado. No ano de 2017, no estado de Pernambuco, cerca de 72% das mortes por mortalidade materna  foram de mulheres negras (pretas e pardas). Na cidade do Recife, 95% das mulheres que morreram de morte materna em 2018 eram negras². 

Cerca de 80% das mulheres que estão em situação prisional em Pernambuco são negras. Pernambuco é o terceiro estado com maior índice de aumento de casos de homicídios de jovens no ano de 2017 (ampliação de 26,2% em relação a 2016). Em torno de 70% desses jovens assassinados, são negros. São  filhos, maridos, irmãos, familiares e amigos das mulheres negras³.

Entretanto, são essas mesmas mulheres negras que asseguraram, ao longo da história desse país, as diferentes estratégias de resistência dessa população. As mulheres negras atuaram ombro a ombro com os homens negros na resistência à escravidão, lideraram revoltas e quilombos, constituíram irmandades, preservaram a ancestralidade e a cultura do seu povo, se constituíram como movimento autônomo e hoje fazem diferentes lutas de resistência pelo Brasil e pelo mundo.

Hoje, as mulheres negras se mantém ativas e estão na luta pelo Direito à Cidade, no enfrentamento à violência do Estado, na luta pela terra, na defesa dos bens comuns e do bem viver, nas arenas da política, da economia e da produção do conhecimento,  disputando as universidades, ditando moda nas mídias sociais, disputando narrativas de liberdade, construindo solidariedade e convidando a sociedade a se juntar a elas nessa luta contra o racismo, a violência e o preconceito. As mulheres negras estão cada vez mais vivas! E é em nome dessa vida negra pulsante, que a Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e a FASE realizam essa campanha.

[1] Jornalista.

[2] Dados do Comitê de Mortalidade Materna.

[3]  Dados do Atlas da Violência 2019.

 

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