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11/08/2017Amazonia

Comitê de combate aos agrotóxicos é criado no Pará

Comitê Paraense faz parte da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. A iniciativa defende a agroecologia em contraponto ao agronegócio


Élida Galvão¹

Compreendendo a importância de alertar e informar a sociedade sobre os malefícios dos agrotóxicos para a saúde humana e para o meio ambiente, um grupo de pessoas, entre elas estudantes, militantes, educadores (as), professores (as) e pesquisadores (as), esteve reunido, nesta terça-feira (8), no auditório da Catedral da Sé, em Belém (PA), para dialogar sobre as primeiras ações do Comitê Paraense da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida que ali se formava.

Comitê paraense quer articular ações de combate aos agrotóxicos. (Foto: Fundo Dema)

Durante este primeiro encontro, o grupo se voltou às definições das principais linhas de ação da campanha, como a massificação dos materiais de divulgação em importantes datas comemorativas; a visibilidade de estudos e a orientação à sociedade sobre os impactos do uso dos agrotóxicos e sobre a agroecologia, a soberania e segurança alimentar; o acompanhamento e enfrentamento de medidas políticas contrárias ao bem-estar da população e proteção do meio ambiente; o apoio às organizações populares com estímulo aos circuitos curtos de comercialização, com mapeamento de experiências exitosas, assim como de comunidades impactadas pelo veneno em monocultivos, entre outras iniciativas.

Contribuindo para o fortalecimento da luta em nível nacional, o comitê regional inicia a composição com a integração de algumas instituições e entidades. O programa da FASE na Amazônia e o Fundo Dema estiveram representados no grupo, que também inclui o Núcleo de Ciências Agrárias e Desenvolvimento Rural (NCADR) e o Departamento de Nutrição da Universidade Federal do Pará, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Movimento Slow Food, o Instituto Iacitata Amazônia Viva e o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA). Participaram ainda representantes da comunidade quilombola Abacatal, localizada no município de Ananindeua, e que vem sendo diretamente impactada com a poluição dos igarapés que cortam a comunidade, onde é depositado o lixo urbano da região Metropolitana de Belém.

Contaminações por agrotóxicos é caso de saúde pública. (Fernando Frazão/ABr)

“A formação do Comitê paraense é uma esperança para que a luta contra os venenos na agricultura se fortaleça, para que os casos de envenenamento por agrotóxico, intoxicação de comunidades, poluição de rios e igarapés sejam visibilizados e denunciados. E ao mesmo tempo, para que seja um espaço de divulgação das experiências de agricultores familiares, agroextrativistas que seguem os princípios da agroecologia e que já produzem alimentos saudáveis. O Comitê é nosso, de todos que valorizam a agroecologia, a alimentação limpa e livre de agrotóxicos”, considera Vânia Carvalho, educadora do Fundo Dema presente no encontro.

Agro é lixo. Agro é tóxico. Agro mata

Considerada uma das maiores e mais organizadas bancadas do parlamento brasileiro, a bancada ruralista – que representa 40% no Congresso Nacional e 13% no Senado², sem contar com as bancadas empreiteira e empresarial, ambas em número maior ainda – beneficia fortemente os interesses latifundiários em que a produção, a comercialização e o consumo são pautados em um modelo de desenvolvimento capitalista, que desconsidera totalmente a democratização do acesso à terra e a garantia da vida por meio da soberania e da segurança e nutricional. Ao contrário da agroecologia, o Comitê destaca que o agronegócio é antidemocrático, excludente e se mantém fortemente atrelado a causas de inúmeras mortes e intoxicações.

De acordo com dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), cerca de um terço dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros está contaminada por agrotóxico, o que garante ao Brasil a liderança no ranking de consumo deste veneno no mundo. Junto ao dado cresce, também, o número de doenças provocadas pelo contato direto de agricultores com os agrotóxicos e pela ingestão de alimentos contaminados e/ou geneticamente modificados, como os transgênicos, sem contar a degradação ambiental com a contaminação do solo, do ar e a contribuição disso para a intensidade do efeito estufa e as mudanças climáticas.

Monocultura de soja do agronegócio. (Foto: Roosewelt Pinheiro/ABr)

No Pará, os monocultivos da soja e do dendê, por exemplo, voltados para a produção de biocombustível, têm trazido inúmeros prejuízos aos povos do campo e da floresta. Os monocultivos dessas espécies, além de provocarem a invasão nos territórios de povos indígenas e comunidades tradicionais, são altamente dependentes de fertilizantes químicos, gerando danos ambientais e sociais.

Agroecologia é vida, é saúde, é alimento de verdade

Muito mais do que plantar sem a utilização de agrotóxicos, a agroecologia é um modo de produzir e viver pautado na valorização dos bens comuns e do bem-estar da população por meio de uma economia cooperativa e solidária. Considerada a alternativa para a melhoria das condições de vida da população, a agroecologia parte sempre de princípios saudáveis, democráticos, equitativos.

Diferente da agricultura química e industrial, a agroecologia possibilita a renovação natural das funções orgânicas da natureza. A transição para este modo de vida e de produção visa sempre a preservação do bioma; a valorização dos conhecimentos tradicionais e da agrobiodiversidade; proporciona uma alimentação natural e verdadeiramente saudável, segura e nutritiva à população; democratiza o acesso à terra e estabelece a equidade de gênero no campo e na floresta, possibilitando o exercício do direito de produzir e consumir alimentos de forma soberana.

Recém-saído do Mapa da Fome Mundial, conforme divulgou o relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Alimentação e Agricultura (FAO) em 2014, o Brasil conseguiu superar a situação de pobreza extrema, mas isso não significa necessariamente a melhoria na qualidade da alimentação. Nesse sentido, as organizações e movimentos sociais que integram o Comitê ressaltam que é importante compreender tanto o papel da agricultura familiar para a erradicação da fome e a conquista da segurança alimentar e nutricional, quanto a importância da agroecologia na integração entre os seres humanos e a natureza, de forma a proporcionar a manutenção de uma vida saudável à população.

A campanha

Criada em 2011, a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida objetiva alertar e informar a sociedade sobre riscos do agrotóxico, tanto por meio do contato direto quanto pela ingestão de alimentos contaminados, e ao mesmo tempo promover a agroecologia como o modelo de produção e de alimentação justo e saudável à população. Por meio de um esforço coletivo, tem se ampliado por todo o país com a criação de diversos comitês formados por estudantes, pesquisadores (as) e militantes de organizações e movimentos sociais que lutam pela transição de um modelo agrícola que produz comida envenenada para um modelo pautado na valorização da agricultura familiar e da agroecologia.

[1] Jornalista do Fundo Dema, do qual a FASE é parte.

[2] Dados da Agência Pública .

[3] Saiba mais sobre a campanha em: contraosagrotoxicos.org.

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