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23/06/2017Fundo Dema

Indígenas Xipaya garantem segurança alimentar e subsistência por meio de manejo florestal

Conciliando a proteção ambiental e o rendimento econômico, de modo racional e equilibrado, ação desenvolvida com o apoio do Fundo Dema aproveita o trato do açaí de diversas formas. Indígenas impactados pela hidrelétrica de Belo Monte estão à frente da iniciativa


Élida Galvão¹

Nativos da região há mais de 70 anos, os indígenas Xipaya da aldeia Tukamã² estão na contramão da violência social, cultural e ambiental pela qual vêm passando após a invasão dos chamados “grandes projetos” na Amazônia. Eles são diretamente impactados pelo empreendedorismo governamental, mas apesar de todos os problemas enfrentados passaram a desenvolver um projeto de amplo alcance social e tomaram a iniciativa de garantir o acesso a uma alimentação saudável, mantendo uma harmoniosa relação com a natureza.

Famílias da aldeia Xipaya constroem mapa do território em que vivem . (Foto: Fundo Dema)

Por meio da iniciativa “Fortalecimento da Economia e da Segurança Alimentar Através do Manejo Sustentável do Açaí Nativo na Aldeia Tukumã da Etnia Xipaia, Município de Altamira”, desenvolvido pela Associação Indígena Pyjahyry Xipaia (AIPHX), os indígenas têm trabalhado com o manejo de açaizais nativos e veem nesta atividade uma oportunidade de contribuir na renda familiar e de promover a educação ambiental, no sentido de fortalecer a cultura do grupo.

Conciliando a proteção ambiental e o rendimento econômico, de modo racional e equilibrado, a ação coletiva, desenvolvida com o apoio do Fundo Dema, aproveita o trato do açaí de diversas formas. “Do fruto extraímos o suco, que é matéria-prima para produção de sorvete, geleia, mingau, corante, licor e outras bebidas alcóolicas fermentadas. Do caule se faz palmito. As palhas são usadas na cobertura das casas e também como matéria-prima para artesanato e adubo. O tronco produz ripas e caibros para construções rurais, para fazer lenha e celulose. E, finalmente, as raízes são utilizadas como vermífugo”, explica Joilan Xipaia, engenheira florestal e membro AIPHX.

Engenheira florestal, a indígena Joilan Xipaia acompanha o projeto. (Foto: Fundo Dema)

Tido como uma alternativa de subsistência a 15 famílias da aldeia, envolvendo diretamente 26 pessoas, com idade entre 19 a 30 anos, o projeto já passou por duas etapas. Na primeira, os indígenas foram capacitados quanto ao manejo e produziram um mapa da localização das áreas de açaí. Já a segunda etapa foi voltada ao inventário dos açaizais e à prática de manejo. Atualmente, os participantes fazem a limpeza da área, identificaram a quantidade de pés de açaí e a potencialidade da ação. “Já constatamos que a potencialidade é 80% de produção de açaí, com 974 pés produtivos”, comenta Joilan.

Cada área produtiva equivale a cinco hectares, porém, considerando duas áreas de uso coletivo, totalizam-se dez hectares produtivos. Cada pé de açaí gera, em média, quatro quilos de semente. Dessa forma, considerando o total de pés produtivos, serão produzidos cerca de 219 latas de 15 quilos e 1.314 litros de polpa do fruto. É preciso salientar que a Associação, para além dos pés nativos, comprou mil mudas de açaí. Plantou 200 pés em cada área produtiva e o restante dividiu em quantidades iguais para cada família plantar em suas roças individuais.

(Foto: Fundo Dema)

A propagação da iniciativa desenvolvida pelos Xipaia alcança outras cinco aldeias que ficam próximas a Tukamã. Além disso, a comunidade já tem um projeto de Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) aprovado e a expectativa é que o recurso seja acessado ainda este ano. Agora, eles pretendem partir para a conquista de acesso ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) não só com o açaí, mas com mais produções alimentares a partir do plantio de outras frutas, legumes e ervas.

Uma parceria com a Universidade Federal do Pará (UFPA) possibilitou aos alunos e aos professores contribuírem na capacitação e monitoramento. Os Xipaias querem disseminar a experiência enquanto alternativa de subsistência e de segurança alimentar às aldeias vizinhas.

(Foto: Fundo Dema)

O diretor do curso de engenharia florestal do campus de Altamira, Alisson Reis, participou das ações inicialmente desenvolvidas. De acordo com o professor, o projeto tem sido muito importante para a aldeia. “Esse aporte do Fundo Dema foi fundamental para eles entenderem o processo e passarem a usar esse vegetal na alimentação. Eles estão empolgados com este projeto bastante assertivo porque tem ajudado muito na segurança alimentar da aldeia”, considera.

A ameaça aos povos da floresta

Incentivar a comunidade Xipaya a produzir e fortalecer a cultura alimentar é um dos objetivos da AIPHX. “Hoje o maior desafio na aldeia é resgatar a comunidade desse vício de Norte Energia³ e incentivar a busca pela própria sustentabilidade”, pontua a Joilan. A engenheira afirma ainda que a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, estruturada pela empresa Norte Energia, deixou muito retrocesso aos povos da região. “A experiência com a construção da hidrelétrica foi um colapso para os povos indígenas. As ações de mitigação resultaram em um choque tanto no aspecto cultural quanto social e ambiental. As comunidades da região acabaram criando certa dependência das ferramentas e alimentos que eram doados pela Norte Energia. O Plano Emergencial⁴ deflagrou um dos processos mais perversos de cooptação de lideranças indígenas e desestruturação social promovidos por Belo Monte”, destaca Joilan.

(Foto: Fundo Dema)

Os impactos sobre a organização socioeconômica e a autonomia política das aldeias foram diversos. “Em todas as aldeias houve desinteresse pelo plantio [após a chegada da empresa]. As pessoas ficam constantemente doentes, com dor de estômago e têm problemas de obesidade. Não praticam suas danças e rituais. Ficam todos assistindo novelas entre os outros programas dos não índios”, denuncia a indígena Xipaya.

Belo Sun = Mais impacto

Como se não bastasse o grande desafio enfrentado contra o retrocesso deixado pela construção de Belo Monte, a luta se estende contra o empreendimento da mineradora canadense Belo Sun, que visa a extração de ouro na Volta Grande do Xingu⁵, cuja exploração se estende para a região onde estão localizados os Xipayas.

Considerado uma ameaça que já vem se concretizando, Belo Sun, assim como Belo Monte, caminha em direção contrária à preservação da vida, rumo a um modelo de desenvolvimento pautado na destruição da diversidade social e ambiental da Amazônia. “Belo Sun é uma ameaça real que está se instalando no município. Vai começar a extração de minério em duas aldeias [Curuá e Irinapane] da etnia Kuruaya”, diz Joilan sobre o empreendimento que vai começar a extrair ouro. Porém,  essa exploração irá atingir diretamente outras quatro aldeias, que são a Tukamã, Tukaya e Kujubim, todas pertencentes à etnia Xipaya; e Curuatxe, pertencente à etnia Kuruaya. Para a extração do minério, será necessário deslocar as aldeias para outro local, o que certamente provocará mais choques culturais, sociais e ambientais.Vale ressaltar ainda que tudo isso já vem ocorrendo sem consulta prévia aos povos da região.

 [1] Edição de matéria da comunicadora do Fundo Dema

[2] Localizada à margem esquerda do rio Iriri, em uma área de 178.624 hectares, situada na região da Terra do Meio, no sudoeste do Pará.

[3] Consórcio formado por diversas empresas envolvidas na construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.

[4] O Plano Emergencial foi implementado pela Norte Energia em decorrência do atraso na contratação do Projeto Básico Ambiental do Componente Indígena (PBA-CI). Com duração de 24 meses, o Plano deveria implantar ações de mitigação antes do início efetivo da obra, porém, nada foi cumprido.

[5] Área de cerca de 100 km percorridos pelo rio Xingu, de grande potencial hidrelétrico, e que abarca os município de Altamira, Senador José porfírio, Anapu e Vitória do Xingu.

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