*Paula Schitine

Um grupo formado por cinco mulheres do assentamento Roseli Nunes, em Mato Grosso, aumentou a renda e deu novo significado ao processo produtivo do local através do empoderamento, da sororidade e da produção de bebida artesanal.

A ideia de criar uma marca de cerveja dentro do assentamento veio meio sem querer, com a convocação do edital federal “Tereza de Benguela”, que contemplaria um grupo de 15 mulheres com um curso completo de formação em cervejaria com certificação, que durou 6 meses com 360 horas de teoria e prática. As mulheres cervejeiras são associadas da ARPA – Associação Regional de Produtores da Agroecologia.

A falecida dona Emília foi a primeira a se interessar e foi convocando outras mulheres a participar. “Quando ela me chamou eu fiquei meio desanimada porque nem gostava muito de cerveja. Mas elas precisavam reunir um grupo e se eu não entrasse faltariam mulheres. Então, acabou que eu entrei e adorei”, conta Ana Lúcia de Jesus.

Iraci também foi uma das convocadas porque gostava de consumir a bebida, então, para ela foi fácil se unir ao grupo. “A parte teórica para mim foi bem mais fácil de aprender porque sou formada em História e conhecer a origem da cerveja foi um complemente maravilhoso na minha formação. Mas a parte prática foi bastante desafiadora, porque demandava atenção, memorização e cálculo. Não é fácil produzir cerveja”, resume Iraci da Silva Pereira.

Grupo de mulheres cervejeiras (da esquerda para direita): Iraci, dona Dionice, Ana Lúcia e Cristiane), criadoras da ‘Crioula’.

A cerveja “Crioula”

O nome “Crioula” surgiu da tradição, mas foi decidido depois de uma pesquisa com o grupo. “Crioula vem das sementes e não do adjetivo pejorativo dado a mulheres negras, e para nós quer dizer ‘guardiãs da semente”, relembra a matriarca do grupo, dona Dionice Ribeiro, mãe de Cristiane.

Apesar de gostarem de manter o mistério em torno dos ingredientes, elas se orgulham do produto que criaram e fazem questão de explicar como são fabricadas as ‘Crioulas’. “O diferencial da nossa cerveja é o malte mais torrado e o sabor, que agora, tem a essência de hibisco, que deixa a bebida bem mais vermelha e encorpada. Ela é mais forte do que as outras cervejas e prezamos ainda pela qualidade da água, que é limpa”, defende Cristiane.

Além disso, a bebida é completamente natural. “Essa é uma cerveja que tem a vantagem de ser artesanal e agroecológica, e você pode beber 10 garrafinhas que no dia seguinte parece que não bebeu álcool”, defende Cristiane Ribeiro. “Não tem mistura e nem química, a gente respeita o processo natural dela, o gás é produzido pela fermentação e o processo todo demora 30 dias”, explica Ana Lúcia de Jesus.

Perdas e resiliência

Com a pandemia do coronavírus o grupo experimentou todo tipo de dificuldade. Desde o afastamento de companheiras pela doença ou por falta de interesse até o falecimento de dona Emília.

“Foi um choque muito grande para nós e pensamos em desistir. Mas, também pensamos que não poderíamos deixar todo este trabalho de lado. A cerveja já era procurada aqui no assentamento e isso levantou a nossa autoestima”, lembra dona Dionice.

“Nossa cerveja é aprovada por homens e mulheres. e atualmente estamos estudando formas de crescer a produção porque nós quatro fazemos tudo desde a produção à comercialização e a demanda é grande”, comemora Ana Lúcia.

*Paula Schitine é jornalista da Comunicação da FASE.