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14/08/2018Fundo Dema

Sem feminismo não há agroecologia

A região do Baixo Amazonas, no município de Belterra conta com uma organização exclusivamente feminina, que contribui para a transformação da realidade de mulheres do campo e da cidade, a Associação das Mulheres Trabalhadoras Rurais de Belterra (AMABELA)


Élida Galvão¹

AMABELA é a sigla da Associação das Mulheres Trabalhadoras Rurais de Belterra, mas se você associou esta palavra à junção de amor + beleza também está tudo certo. Isto (amor e beleza) é o que não falta no grupo de mulheres autônomas que integram a associação criada em 2015.

Lindalva e suas companheiras sentem orgulho em cultivar alimentos sem agrotóxicos.

Localizada na região do Baixo Amazonas, no Oeste do Pará, o município de Belterra conta hoje com uma entidade exclusivamente feminina, que tem contribuído na transformação da realidade de mulheres do campo e da cidade, proporcionando independência por meio do debate de gênero, da luta contra todos os tipos de violência e do fortalecimento de suas produções para a obtenção de renda ou como forma de ampliar seus lucros.

Com o objetivo de desenvolver um trabalho voltado à capacitação para produção sustentável de alimentos, aliando a geração de renda à recuperação de áreas degradadas, as mulheres da AMABELA iniciaram o projeto ‘Implantação de quintais produtivos a partir da criação de galinha caipira, produção de ovos e horticultura’, que é apoiado pelo Fundo Luzia Dorothy do Espírito Santo² e que beneficia cerca de 21 mulheres em cinco distritos do município.

Além da capacitação em boas práticas de plantio orgânico, há também a formação para a criação de galinha caipira com produção de ração orgânica, de forma a substituir o uso de ração industrializada e de insumos químicos na produção de hortaliças.

Três canteiro foram construídos de forma coletiva.

As duas atividades – criação de galinha e produção de hortaliças – se relacionam e se complementam na adubação do canteiro. As sobras de verduras, por exemplo, são utilizadas na produção de ração das aves. Junto à criação de galinhas caipiras há a produção de ovos e ambos são vendidos no comércio local.

Além de proporcionar à sociedade uma alimentação de qualidade, livre de agrotóxicos e hormônios, e até mesmo de se alimentar de forma saudável e nutritiva com o que plantam e criam, as mulheres da AMABELA contribuem para o fortalecimento da agroecologia, combatendo as queimadas, o desmatamento e o uso de veneno.

“Tudo é agroecológico. A gente prega a agroecologia. Cada uma produz no seu quintal. O projeto se estende às mulheres que não são associadas, isso porque procuramos incentivá-las. Trabalhamos pelo coletivo e ajudamos elas a produzir também”, comenta Selma Ferreira, presidente da associação.

A biodiversidade como forma de resistência

No município de Belterra, o agronegócio é uma ameaça a ser enfrentada. O monocultivo de soja, milho, arroz, entre outros, vem aumentando o risco de extinção de abelhas nativas, por exemplo, devido ao volume de agrotóxicos dispersos no ar e que acabam indo para áreas de floresta e para plantações vizinhas.

Em contraposição a esta realidade, os quintais agroecológicos das participantes do projeto são bem diversos e têm de tudo, entre frutas, hortaliças e criação de pequenos animais. Para se ter uma ideia, só no quintal de Selma tem: acerola, cupuaçu, laranja, berirá, ingá, abacaxi, buriti, açaí, carambola, jambo, taperebá, maracujá, goiaba, cheiro verde, alface, tomate, couve, pepino, maxixe, pimenta de cheiro, batata doce, além da criação de galinha e produção de ovos. Essa diversidade é fundamental para assegurar a saúde da terra, a preservação das espécies vegetais e animais e controlar as pragas.

Técnicas agroecológicas

Contando ainda com atenção do Fundo Dema e o apoio técnico do programa da FASE na Amazônia, as mulheres tiveram um grande aprendizado sobre adubação orgânica e a criação de aves. De acordo com Lindalva Castro, o que antes consideravam lixo, passaram a utilizar como um componente de adubo.

(Foto: Bob Barbosa / BrF)

“A gente não sabia que o mato que crescia em volta do canteiro dava pra fazer adubo. Agora a gente acrescenta o esterco de galinha, de gado, folha seca, pau velho. Aprendemos que isso não é lixo e sim adubo orgânico”, diz Lindalva. Seu quintal foi escolhido para iniciar as atividades do projeto, porém, as 21 mulheres terão canteiros construídos coletivamente em seus terrenos.

Entre os diversos tipos de adubação por elas aprendido, consta o adubo foliar, com propriedade química que, segundo Samis Vieira, educador da FASE na região, “serve ao mesmo tempo como adubo orgânico e como repelente natural, atuando no controle de pragas e doenças nos cultivos”.

“Tem toda uma técnica para fazer esse tipo de adubo. Utilizamos esterco de galinha, de carneiro, de gado, garapa de cana, leite de gado e cinza. Aí deixamos 15 dias descansando. Depois Não usamos nenhum tipo de agrotóxico para não fazer mal à saúde de ninguém”, complementa Lindalva.

[1] Jornalista do Fundo Dema

[2] Fundo Autônomo que apoia projetos coletivos, exclusivamente de mulheres, nas regiões do Baixo Amazonas, BR 163 e Transamazônica, no Oeste do Pará.

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